quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Alegria e comoção marcam celebração de abertura do 13º Intereclesial das CEBs

Carregados de entusiasmo e alegria romeiros e romeiras festejaram a abertura, na noite do dia 7 de janeiro, da 13ª edição do Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Bases (CEBs) que reflete sobre o tema “Justiça e Profecia a serviço da Vida” e o lema “CEBs romeiras do reino no campo e na cidade”.

A cidade de Juazeiro do Norte, localizada no sertão caririense do Ceará, terra de Padre Ibiapina, Padre Cícero e de tantos referenciais ficou pequena com a presença de centenas de romeiros e romeiras vindas de várias regiões do Brasil e de outros países da África, Europa, Ásia e América latina. “Não existe distância para quem tem fé no coração”, expressou um dos repentistas na acolhida das regiões.

Com chapéus abananando e erguidos ao céu, abraços e olhares calorosos os romeiros e romeiras foram chegando e se acomodando no espaço da Igreja de São Francisco. A acolhida contou com várias mensagens dentre elas uma muito especial onde pela primeira vez um Papa fez referência ao encontro das CEBs. A mensagem do Papa Francisco causou alegria em abundância aos participantes que aplaudiram com muita emoção e esperança suas palavras. “Que este encontro seja abençoado pelo nosso Pai dos Céus, com as luzes do Espírito Santo que lhes ajudem a viver com renovado ardor os compromissos do Evangelho de Jesus no seio da sociedade brasileira. De fato, o lema deste encontro “CEBs, Romeiras do Reino, no Campo e na Cidade” deve soar como uma chamada para que estas assumam sempre mais o seu importantíssimo papel na missão Evangelizadora da Igreja”, diz um trecho da mensagem do Papa Francisco. A mensagem completa pode ser lida no link: http://www.intereclesialcebs.org/full.php?id_noticia=272&noticia_cat=2

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também expressou mensagem de acolhida pelo 13º intereclesial e reforçou as CEBs como seguidoras fiéis de Jesus Cristo no mundo e expressão viva da realidade do povo.


A celebração foi tomada por simbolismos que marcaram a história e caminhada das CEBs bem representado pelo trem onde cada vagão trouxe o tema celebrado nas doze edições anteriores.

Dom Fernando Panico, bispo da diocese de Crato saudou os participantes e os romeiros. “Sejam todos bem-vindos à diocese de Crato e ao Juazeiro do Norte. Em nome desta diocese de Crato que celebra o jubileu dos 100 anos de caminhada e em comunhão com a Igreja no Ceará, vos acolho com alegria, respeito, admiração e confiança”. O bispo recordou missionários e profetas que marcaram a região. “Bem-vindos à terra do padre Inbiapina, do padre Cícero, do beato Zé Lourenço do Caldeirão, da beata Maria de Araújo, de dom Helder Camara, do poeta popular Patativa e da Serva de Deus a menina Benigna da Silva Cardoso”. Dom Fernando recordou ainda o tema do 13º Intereclesial. “Somos romeiros e romeiras do Reino, comunidade de buscadores de Deus desejamos estar a serviço do Reino trilhando caminhos da justiça e de profecia na cidade e no campo. A terra dos romeiros vos acolhe com festa. Somo irmãos e irmãs, peregrinos da fé e a esperança de novos céus e nova terra”, afirmou.


Contentes os romeiros e romeiras receberam castanhas e amendoim, produtos típicos da região. Após a bênção as delegações voltaram para as 24 paróquias nas cidades de Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Caririaçu e Missão Velha, locais de acolhida.

O encontro segue até às 17h do dia 11 de janeiro onde se encerrará com uma celebração de envio na praça do Santuário Nossa Senhora das Dores. Até lá os romeiros e romeiras participarão de vários momentos de reflexão sobre o papel e missão das CEBs. Estão previstos ainda visitas às paróquias e comunidades da região. No local do evento foi montada uma Feira de Economia Solidária e comércio justo com produtos de várias regiões.

 de Jeane Freitas e Jaime C. Patias - Comunicação 13�

terça-feira, 26 de novembro de 2013

UM PROBLEMA COM RAIZ



Por Pe Júlio Ferreira e Thales Emmanuel.*

Diz-se raiz do problema aquela que é causa primeira, sem a qual o problema deixa de existir.
Nosso problema começa há quinhentos e poucos anos, quando se iniciou a imposição, pela violência, a povos inteiros de um modelo de sociedade em que o direito de uns poucos tinha que se alastrar a todos os cantos na mesma medida em que o dever da maioria só poderia ser entoado na nota única da obediência.

As regras do jogo sempre foram claras:ou amém ou chibata. A maneira como o problema foi se desenvolvendo também não mudou muito de um lugar para outro: promessas de prosperidade futura, cooptação de lideranças, manobras que colocavam comunidades e povos contra eles mesmos, ameaças, migalhas compensatórias que não compensavam, cadeias, assassinatos, criminalização de toda forma de resistência etc. 

No território invadido, cercas foram inauguradas com pomposas festas para poucos convidados. Ao povo, sobrou um direito bondosamente concedido: aplaudir de longe os novos Descobrimentos.
Como nenhum Cabralse mantém sem concentrar para si o poder das armas, um Estado logo foi estruturado para dar vazão e razão às civilizadas ideias da classe dominante. Governos de fora, depois locais, imperiais ou republicanos, fascistas ou populistas, revezaram-se sucessivamente no disputado cargo de marionete do sistema.

Os anos passaram e a velha caravela, cheia das boas intenções, foi rebatizada com suntuoso nome: neodesenvolvimentismo, uma espécie de neoliberalismo caridoso. 

São barragens, eólicas, carciniculturas, hotéis-resorts, remoções de comunidades para dar passagem a grandes eventos, extermínio da juventude pobre, redução de direitos trabalhistas, transgênicos, agronegócios... É tanta da sigla se empenhando no prosseguimento de 1500que o povo tem ido insistente e massivamente às ruas protestar pela descolonização. A resistência se mantém viva!

O problema social brasileiro tem profunda raiz, é verdade, mas nada que o sopro do vento de um povo que vai às ruas e que luta não consiga arrancar. 

O poder popular é a chave para se resolver a complexa equação em que o Estado se instrumentaliza, a partir dos interesses de uns poucos, para oprimir a maioria da população. 

Que o próprio povo o coloque no banco dos réus e saia deste tribunal sentenciado a cumprir uma missão de vida em que os projetos dos grandes possam se restringir unicamente a uma história passada e cada vez mais remota.


 

* Pe Júlio Ferreira é missionário Redentorista e Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST). Ambos são membros da Organização Popular (OPA).

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O que é vandalismo, alguém pode me ajudar a entender?




Há poucos dias acompanhei uma família que tentou, desesperadamente, evitar o óbito de sua mãe. Dona Eunice passou 20 dias "hospitalizada" no Hospital Municipal de Aracati, digo entre aspas porque não se trata de um hospital, mas de um posto de saúde precário. As vezes que estive ali para visitar dona Eunice vi de perto o sofrimento de muita gente, que como dona Eunice, acabam falecendo por falta de um adequado acompanhamento. Uma das vezes levaram dona Eunice para Fortaleza e de dentro da ambulância ela não saiu. Segundo relato da filha, a médica disse não ser necessário, e que só precisava dos exames. De Aracati à Fortaleza são 150Km. Quando providenciaram a transferência já era tarde. A saúde pública está sendo sucateada, pessoas morrem a míngua e não se fala em vandalismo.

A comunidade da Ilha São José é uma das comunidades de Aracati que vem sendo destruída pela carcinicultura. Ali existia carnaúbas, hoje não existe mais. Ali havia lagoas, hoje já não há mais. Na Ilha se vivia das plantações, hoje já não há terra para plantar. Tudo foi derrubado, aterrado... e por último estão tirando as pessoas, oferecendo casas em outro lugar. Assim também no Cumbe, no Cajueiro, na Timbaúba, no Canapum, no Morrinhos... Eles chegam depredando o meio ambiente, as pessoas, a vida e não são vândalos.

Antes da eólica e carcinicultura se apropriarem dos espaços da comunidade do Cumbe, as pessoas tinham livre acesso. Elas faziam parte do meio ambiente, interagiam. Eram mangue, sururu, carangueijo, dunas, lagos, pessoas felizes. Ai eles chegaram e se tornaram donos de tudo, colocando cercas, placas, proibições... Eles dividiram a comunidade, cercearam liberdades e não praticam vandalismo.

Aracati é tida como a segunda cidade depois de Fortaleza, com maior índice de drogas e prostituição infantil. Muitas vidas são ceifadas, principalmente de jovens. Mães que choram seus filhos e não são escutadas. Onde estão as políticas públicas para a juventude? O ensino de qualidade? Acessibilidade a cultura e ao lazer? O emprego? A comida na mesa? Roubam as vidas de nossos jovens e não são vândalos.

Multidões foram e continuam indo as ruas mostrar sua indignação, dizendo já não ser mais possível suportar o peso da desigualdade fruto do capitalismo, do lucro e do acúmulo. Os que gritam, cantam, dão o seu recado e vão embora são chamados de pacíficos. Aqueles que afrontam os poderes e apontam os causadores das feridas abertas são denominados de vândalos, são perseguidos e presos. O que é vandalismo? Alguém pode me ajudar a entender?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Que venham os pés romeiros!



"Vem chegando o romeiro, vem chegando a romeira", chegando para fazer acontecer o 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs. Com o tema: Justiça e Profecia a Serviço da Vida e o lema: CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade, o 13º Intereclesial acontece na cidade de Juazeiro do Norte, diocese do Crato, nos dias 07 a 11 de janeiro de 2014.

"Não deixe cair a profecia", esse foi o pedido de dom Helder antes de fazer sua páscoa. O 13º Intereclesial que começou há quatro anos atrás, tem a pretensão de fazer esse pedido de dom Helder ecoar em todos os cantos. As CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade, querem continuar sendo fiéis ao sopro do Espírito, mesmo que para isso tenham que andar "com Jesus na contramão." 

Ao longo desses quatro anos houve a sensibilização, o aprofundamento e a vivência, em todas as CEBs do Brasil. O Intereclesial, segundo o compositor e cantor das CEBs, Zé Martins, é uma grande celebração do povo de Deus, um espaço para confrontar a nossa prática com a prática de Jesus, onde se vive a comunhão eclesial e a partilha, o ecumenismo e o diálogo com outras religiões e com outras culturas. O Interclesial é encontro para fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base.

O primeiro encontro Intereclesial de CEBs foi realizado em Vitória (ES), em janeiro de 1975, ano em que o país mergulhou no terror patrocinado pela repressão do regime comandado pelo general Geisel. Teve como tema: "CEBs: Uma Igreja que Nasce do Povo pelo Espírito de Deus" e contou com a participação de 70 delegados, além de bispos e assessores. 

Realizado também em Vitória, em agosto de 1976, o segundo Intereclesial registrou a presença de 3 bispos latino-americanos, 13 bispos brasileiros e a participação de 100 delegados. Tendo como tema: CEBs: Igreja, Povo que Caminha", o encontro se voltou para o engajamento das Comunidades Eclesiais de Base nas lutas sociais. 
 
Em julho de 1978, nos dez anos de Medellin, João Pessoa, na Paraíba, sediou o terceiro Encontro Intereclesial de CEBs. Contou com 200 delegados, entre índios, evangélicos e latinos e discutiu o tema "CEBs: Igreja, Povo que se Liberta". A proximidade do fim da ditadura militar marcou o 4° Encontro. Realizado em abril de 1981, em Itaici (SP), teve como tema: "Igreja, Povo Oprimido que se Organiza para a Libertação" e contou com a participação de 280 delegados. 

Dois anos depois, em 1983, a cidade de Canindé (CE), famoso centro de romaria nordestino, onde são realizadas festas em homenagem a São Francisco de Assis, recebeu mais de 50o delegados para o 5° Intereclesial, com o tema: "CEBs: Povo Unido, Semente de uma Nova Sociedade". 

O sexto Intereclesial foi realizado após a ditadura militar (1986), em Trindade (GO), dois anos depois da campanha das "Diretas Já" e um ano após a eleição de Tancredo Neves, que marcou o início da Novo República. Com a participação de 1647 delegados, apresentou o tema: "CEBs: Povo de Deus em Busca da Terra Prometida". É durante a preparação do Interclesial de Trindade que nasce a ampliada nacional das CEBs.

No sétimo encontro, realizado em julho de 1989, na cidade de Duque de Caxias (RJ), uma das regiões mais pobres do País, estiveram presentes 2.550 delegados, entre representantes de 19 países latino-americanos e 12 Igrejas Evangélicas. O tema foi "CEBs: Povo de Deus na América Latina a Caminho da Libertação". Refletiu o importante momento que a sociedade brasileira vivia: eleições diretas para presidente da república, depois de 20 anos de silêncio. 

 Em Santa Maria (RS), setembro de 92, ano do 5° Centenário da invasão da América pelos europeus, e às vésperas do impeachement de Collor, aconteceu o oitavo encontro. Registrou a participação de 2.238 delegados, 88 representantes latino-americanos e 106 evangélicos. Teve como tema: "CEBs: Culturas Oprimidas e a Evangelização na América Latina". 

Realizado em São Luís (MA), o nono Intereclesial aconteceu em julho de 1997, contou com a participação de 2.700 pessoas que refletiram o tema: "CEBs: Vida e Esperança nas Massas". Ao final do encontro, os delegados escolheram a Diocese de Ilhéus, na Bahia, para sediar o 10° Encontro Intereclesial que aconteceu de 11 a 15 de julho do ano 2.000, contou com a participação  de 3.036 delegados. O tema do 10º intereclesial foi: CEBs: Povo de Deus, 2000 anos de caminhada. O encontro celebrou e avaliou os 500 anos de evangelização no Brasil e os 25 anos dos intereclesiais.

A cidade de Ipatinga acolheu de 19 a 23 de julho de 2005, o 11º intereclesial que teve como tema: CEBs, Espiritualidade Libertadora – Seguir Jesus no Compromisso com os Excluídos. Participaram deste intereclesial 3.806 delegados(as). De Ipatinga o trem rumou para o regional noroeste, cidade de Porto Velho - Rondônia, de 21 a 25 de Julho de 2009. O tema: CEBs: Ecologia e Missão - Do ventre da terra o grito que vem da Amazônia - guiou toda a preparação do intereclesial que contou com a participação de 3.010 delegados.


Esperando acolher os  3750 delegados, a cidade de Juazeiro oferece a sua espacialidade romeira para que aconteça o 13º Intereclesial. Que venham os pés romeiros! "Os pés romeiros são como lápis. Nós pobres, somos de poucas letras. Mas a gente também escreve com os pés. Só que prá ler essa escrita precisa de conhecer os chãos da vida e das estradas duras. E é preciso curtir o couro dos pés. Pezinhos de pele fina não deixam quase nada escrito nos caminhos da vida."




terça-feira, 11 de junho de 2013

Comunidade do Cumbe realiza oficina sobre cartografia social



O final de semana parece terminar.Mas para os que estiveram na comunidade do Cumbe ele é um recomeçar. Os dias não terminam para os que lutam incansavelmente por uma sociedade justa, igualitária e livre. E a comunidade do Cumbe sabe muito bem o que significa lutar e resistir. Embora pareça a luta do Davi contra o Golias, a comunidade não se deixa intimidar diante dos grandes projetos depredadores.

Uma oficina sobre cartografia social foi realizada nos dias 08 e 09, na comunidade, pelos estudantes de geografia da Universidade Federal do Ceará - UFC. Segundo João Joventino, da comunidade do Cumbe, essa oficina faz parte de uma ação conjunta na semana do meio ambiente.

"O objetivo da oficina, cartografia social, é oferecer a comunidade um instrumental de luta e de poder. O reconhecimento do território como lugar de realização, espaço coletivo e livre fortalece a luta da comunidade que, na maioria das vezes, se vê refém das injustiças ambientais", afirma Joventino.

Para o estudante de geografia da UFC, Rafael Valente, "a cartografia social é um contraponto da cartografia, que trabalha a partir de mapas temáticos. Os mapas temáticos acaba não visualizando o todo, favorecendo os empresários em detrimento à comunidade". A cartografia social, diz Valente, nasceu nos anos 90 e objetiva a ajudar as comunidades a conhecerem sua história e seu território. Elas se localizam e se defendem, conclui.

Em apoio solidário e participativo, várias entidades, além dos estudantes do departamento de geografia da UFC, estiveram no Cumbe, entre elas a OPA - Organização Popular de Aracati e o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.