quarta-feira, 23 de abril de 2014

Ser Redentorista



Refletir sobre o Ser Redentorista nos leva a olhar para a nossa identidade, pois SER significa existir, é algo íntimo, próprio. Neste caso há algo que nos pertence, que é só nosso. Uma marca registrada por Afonso de Ligório em 1732, que discerniu como sua a vocação de continuar a obra de Jesus Redentor pregando a Boa Nova aos pobres mais abandonados[1].

Para Afonso Ser Redentorista é estar despojado de tudo, até de si mesmo como fez o Redentor, não poupando nenhum esforço para amar e ser amado[2]. É com este mesmo espírito de entrega e doação que nós Redentoristas, leigos e consagrados, devemos continuar a missão Redentora.

Ser Redentorista é estar disponível para ir aonde ninguém quer ir, nem mesmo a Igreja.  É estar imbuídos do zelo apostólico de nosso fundador que não se empenhava para levar os abandonados de volta à Igreja. Ao invés, levou a Igreja a essas pessoas que ela havia abandonado[3].

O Redentorista mantém-se firme na opção preferencial pelos pobres e excluídos da sociedade, mesmo quando certas ondas apontam noutra direção. O Redentorista não é de seguir ondas e modismos que o afaste das suas origens. Faz parte da identidade Redentorista seguir na direção dos cabreiros. Creio que hoje a Congregação é chamada a exprimir a inspiração carismática de Afonso num dinâmico processo de solidariedade. Solidariedade é compaixão, pois ela nos compromete com a luta histórica dos pobres e fracos deste mundo e nos associa aos que estão abandonados e sem esperança[4].

O Ser Redentorista não pode jamais se acomodar ou se adequar a realidades dissonantes do carisma e espiritualidade que lhes são próprios.  O centro da espiritualidade redentorista é Cristo Redentor, tal como se revela sobretudo nos mistérios da Encarnação, Paixão e Ressurreição, e é celebrado na Eucaristia; essa centralidade nos conduz a ser viva memória e a continuar a sua missão no mundo. Essa espiritualidade profundamente cristocêntrica nos impulsiona a redescobrir cada vez melhor a herança de Santo Afonso em seus êxodos para os pobres. O Redentorista segue a Cristo Redentor e prossegue a sua práxis libertadora[5].

Para muitos, inclusive para alguns Redentoristas, os tempos são outros e falar de opção preferencial pelos pobres, de Teologia da Libertação, de Comunidades Eclesiais de Base é coisa do passado. Tal afirmação poderia até fazer sentido se os pobres, excluídos marginalizados tivessem deixado de existir, mas eles existem. Mesmo que a constatação seja óbvia não é supérfluo lembrá-la já que há muitos que pretendem viver e organizar o mundo como se os pobres não existissem[6].

Certa vez, Dom Pedro Casaldáliga, indagado sobre o fim da Teologia da Libertação, respondeu: Deus e os pobres continuam. Ser Redentorista é continuar afirmando a libertação integral de homens e mulheres tornados descartáveis pela sociedade de consumo, e vistos de maneira ingênua por uma igreja que se distancia cada vez da sua raiz profética e espiritualiza tudo sem levar em conta a situação concreta das pessoas.

Há uma identidade Redentorista que não pode ser negada e nem falseada, embora o contexto seja outro. Quem são os cabreiros de hoje? Esta é a pergunta que deve ressoar em nossos ouvidos. São muitos os clamores: Moradores de Rua, Encarcerados, Menores, Sem Terra, Favelas, Jovens, Migrantes, Comunidades tradicionais atingidas pelos grandes projetos depredadores... O mundo dos pobres, enquanto constitui uma interpelação permanente as nossas próprias vidas, atua como um poderoso fator de auto-conhecimento: nos revela o que somos e também aquilo de que somos capazes[...] ao mesmo tempo que vamos descobrindo que a pobreza é uma injustiça e um pecado do qual não somos totalmente alheios, ressoa em nós um chamado incessante a conversão e a revisão de vida[7].

Penso que como parte de nossa Missão Redentorista deveríamos ser linha de frente no fortalecimento da Igreja dos pobres, pois o critério de fidelidade da Congregação é o seguimento de Cristo na evangelização dos mais pobres e abandonados. Portanto nos perguntamos: Estamos onde deveríamos estar? Estamos onde se encontram as urgências pastorais?[8]



[1] A Redenção. Communicanda 2, Junho de 2006. Nº 17, p.13.

[2] IDEM. Nº 14, p. 11.

[3] IDEM. Nº 18, P.14.

[4] IDEM. Nº 41, p.26.

[5] Capítulo Geral XXI. Documento Final, 1991. Nº 36, p.22.

[6] Espiritualidade Redentorista 7, 1996, p. 194.

[7] IDEM. P.197.

[8] Chamados a dar a vida pela Copiosa Redenção. Communicanda 1. Nº 38, p. 23.

domingo, 16 de março de 2014

Comunidade do Cumbe é vítima de terrorismo e vandalismo de Estado



A Comunidade do Cumbe viveu nessa quarta, 12, um dia de terrorismo e vandalismo de Estado. Com o aval da Juíza Ana Celina Monte Studart Gurgel Carneiro, "cidadã aracatiense", mais de 20 policiais militares fortemente armados, com um aparato desproporcional à ação, chegou à comunidade para destruir o barracão da resistência e a criação de ostras dos pescadores.

Dizem que a justiça é cega, mas pelo que vimos na comunidade do Cumbe, ela sabe muito bem o que faz, para que faz e para quem faz. Como se pode alegar que uma criação de ostras numa gamboa prejudica a criação de camarão ? O contrário sim, a criação de camarão aos moldes que temos em Aracati, vem prejudicando o meio ambiente,  as comunidades e as pessoas.

Com essa ação fica cada vez mais comprovado que há uma grande distância entre o que diz a lei e como ela se concretiza, ela não é para todos de forma igual. Em Aracati ela vem sempre beneficiando os opressores do povo. "Fomos tratados como bandidos", disse um pescador.

O que temos visto em todos os cantos dessa nossa cidade é destruição. Lagos são aterrados, carnaúbas são derrubadas, manguezais são devastados, águas são poluídas, e tudo isso com a conivência da Semace, do Ibama e da Prefeitura. Daqui a pouco tempo e bem pouco tempo estaremos vivendo num grande deserto. Na Comunidade da Ilha São José apenas 12 das 33 famílias continuam resistindo e querendo permanecer no seu espaço, as demais cederam aos caprichos do carcinicutor. 

A ação policial no Cumbe, ajuizada pela "justiça", na pessoa da juíza Ana Celina, foi de uma atrocidade sem limites. Bombas de gás, balas de borracha, armamento pesado para gente simples, trabalhadores e trabalhadoras, crianças, jovens, idosos e mulheres grávidas. Cenas que ficarão nas lembranças e alimentarão a resistência. "Vale passar por qualquer medo, quando se sabe por qual causa se está lutando," disse uma das moradoras do Cumbe.

É uma luta de Davi contra Golias ( 1Samuel 17, 41-51). São os Acazes e as Jezebeus ((1Reis 21, 1-27) de hoje querendo tomar os territórios e os espaços das comunidades. É o capital querendo se apropriar indevidamente do que não é seu, visando sempre o lucro e menos o bem estar das pessoas. "Vai chegar o ponto de querer pegar um peixe para os filhos e não poder", desabafou um pescador em meio a destruição física e psicológica.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Alegria e comoção marcam celebração de abertura do 13º Intereclesial das CEBs

Carregados de entusiasmo e alegria romeiros e romeiras festejaram a abertura, na noite do dia 7 de janeiro, da 13ª edição do Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Bases (CEBs) que reflete sobre o tema “Justiça e Profecia a serviço da Vida” e o lema “CEBs romeiras do reino no campo e na cidade”.

A cidade de Juazeiro do Norte, localizada no sertão caririense do Ceará, terra de Padre Ibiapina, Padre Cícero e de tantos referenciais ficou pequena com a presença de centenas de romeiros e romeiras vindas de várias regiões do Brasil e de outros países da África, Europa, Ásia e América latina. “Não existe distância para quem tem fé no coração”, expressou um dos repentistas na acolhida das regiões.

Com chapéus abananando e erguidos ao céu, abraços e olhares calorosos os romeiros e romeiras foram chegando e se acomodando no espaço da Igreja de São Francisco. A acolhida contou com várias mensagens dentre elas uma muito especial onde pela primeira vez um Papa fez referência ao encontro das CEBs. A mensagem do Papa Francisco causou alegria em abundância aos participantes que aplaudiram com muita emoção e esperança suas palavras. “Que este encontro seja abençoado pelo nosso Pai dos Céus, com as luzes do Espírito Santo que lhes ajudem a viver com renovado ardor os compromissos do Evangelho de Jesus no seio da sociedade brasileira. De fato, o lema deste encontro “CEBs, Romeiras do Reino, no Campo e na Cidade” deve soar como uma chamada para que estas assumam sempre mais o seu importantíssimo papel na missão Evangelizadora da Igreja”, diz um trecho da mensagem do Papa Francisco. A mensagem completa pode ser lida no link: http://www.intereclesialcebs.org/full.php?id_noticia=272&noticia_cat=2

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também expressou mensagem de acolhida pelo 13º intereclesial e reforçou as CEBs como seguidoras fiéis de Jesus Cristo no mundo e expressão viva da realidade do povo.


A celebração foi tomada por simbolismos que marcaram a história e caminhada das CEBs bem representado pelo trem onde cada vagão trouxe o tema celebrado nas doze edições anteriores.

Dom Fernando Panico, bispo da diocese de Crato saudou os participantes e os romeiros. “Sejam todos bem-vindos à diocese de Crato e ao Juazeiro do Norte. Em nome desta diocese de Crato que celebra o jubileu dos 100 anos de caminhada e em comunhão com a Igreja no Ceará, vos acolho com alegria, respeito, admiração e confiança”. O bispo recordou missionários e profetas que marcaram a região. “Bem-vindos à terra do padre Inbiapina, do padre Cícero, do beato Zé Lourenço do Caldeirão, da beata Maria de Araújo, de dom Helder Camara, do poeta popular Patativa e da Serva de Deus a menina Benigna da Silva Cardoso”. Dom Fernando recordou ainda o tema do 13º Intereclesial. “Somos romeiros e romeiras do Reino, comunidade de buscadores de Deus desejamos estar a serviço do Reino trilhando caminhos da justiça e de profecia na cidade e no campo. A terra dos romeiros vos acolhe com festa. Somo irmãos e irmãs, peregrinos da fé e a esperança de novos céus e nova terra”, afirmou.


Contentes os romeiros e romeiras receberam castanhas e amendoim, produtos típicos da região. Após a bênção as delegações voltaram para as 24 paróquias nas cidades de Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Caririaçu e Missão Velha, locais de acolhida.

O encontro segue até às 17h do dia 11 de janeiro onde se encerrará com uma celebração de envio na praça do Santuário Nossa Senhora das Dores. Até lá os romeiros e romeiras participarão de vários momentos de reflexão sobre o papel e missão das CEBs. Estão previstos ainda visitas às paróquias e comunidades da região. No local do evento foi montada uma Feira de Economia Solidária e comércio justo com produtos de várias regiões.

 de Jeane Freitas e Jaime C. Patias - Comunicação 13�

terça-feira, 26 de novembro de 2013

UM PROBLEMA COM RAIZ



Por Pe Júlio Ferreira e Thales Emmanuel.*

Diz-se raiz do problema aquela que é causa primeira, sem a qual o problema deixa de existir.
Nosso problema começa há quinhentos e poucos anos, quando se iniciou a imposição, pela violência, a povos inteiros de um modelo de sociedade em que o direito de uns poucos tinha que se alastrar a todos os cantos na mesma medida em que o dever da maioria só poderia ser entoado na nota única da obediência.

As regras do jogo sempre foram claras:ou amém ou chibata. A maneira como o problema foi se desenvolvendo também não mudou muito de um lugar para outro: promessas de prosperidade futura, cooptação de lideranças, manobras que colocavam comunidades e povos contra eles mesmos, ameaças, migalhas compensatórias que não compensavam, cadeias, assassinatos, criminalização de toda forma de resistência etc. 

No território invadido, cercas foram inauguradas com pomposas festas para poucos convidados. Ao povo, sobrou um direito bondosamente concedido: aplaudir de longe os novos Descobrimentos.
Como nenhum Cabralse mantém sem concentrar para si o poder das armas, um Estado logo foi estruturado para dar vazão e razão às civilizadas ideias da classe dominante. Governos de fora, depois locais, imperiais ou republicanos, fascistas ou populistas, revezaram-se sucessivamente no disputado cargo de marionete do sistema.

Os anos passaram e a velha caravela, cheia das boas intenções, foi rebatizada com suntuoso nome: neodesenvolvimentismo, uma espécie de neoliberalismo caridoso. 

São barragens, eólicas, carciniculturas, hotéis-resorts, remoções de comunidades para dar passagem a grandes eventos, extermínio da juventude pobre, redução de direitos trabalhistas, transgênicos, agronegócios... É tanta da sigla se empenhando no prosseguimento de 1500que o povo tem ido insistente e massivamente às ruas protestar pela descolonização. A resistência se mantém viva!

O problema social brasileiro tem profunda raiz, é verdade, mas nada que o sopro do vento de um povo que vai às ruas e que luta não consiga arrancar. 

O poder popular é a chave para se resolver a complexa equação em que o Estado se instrumentaliza, a partir dos interesses de uns poucos, para oprimir a maioria da população. 

Que o próprio povo o coloque no banco dos réus e saia deste tribunal sentenciado a cumprir uma missão de vida em que os projetos dos grandes possam se restringir unicamente a uma história passada e cada vez mais remota.


 

* Pe Júlio Ferreira é missionário Redentorista e Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST). Ambos são membros da Organização Popular (OPA).

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O que é vandalismo, alguém pode me ajudar a entender?




Há poucos dias acompanhei uma família que tentou, desesperadamente, evitar o óbito de sua mãe. Dona Eunice passou 20 dias "hospitalizada" no Hospital Municipal de Aracati, digo entre aspas porque não se trata de um hospital, mas de um posto de saúde precário. As vezes que estive ali para visitar dona Eunice vi de perto o sofrimento de muita gente, que como dona Eunice, acabam falecendo por falta de um adequado acompanhamento. Uma das vezes levaram dona Eunice para Fortaleza e de dentro da ambulância ela não saiu. Segundo relato da filha, a médica disse não ser necessário, e que só precisava dos exames. De Aracati à Fortaleza são 150Km. Quando providenciaram a transferência já era tarde. A saúde pública está sendo sucateada, pessoas morrem a míngua e não se fala em vandalismo.

A comunidade da Ilha São José é uma das comunidades de Aracati que vem sendo destruída pela carcinicultura. Ali existia carnaúbas, hoje não existe mais. Ali havia lagoas, hoje já não há mais. Na Ilha se vivia das plantações, hoje já não há terra para plantar. Tudo foi derrubado, aterrado... e por último estão tirando as pessoas, oferecendo casas em outro lugar. Assim também no Cumbe, no Cajueiro, na Timbaúba, no Canapum, no Morrinhos... Eles chegam depredando o meio ambiente, as pessoas, a vida e não são vândalos.

Antes da eólica e carcinicultura se apropriarem dos espaços da comunidade do Cumbe, as pessoas tinham livre acesso. Elas faziam parte do meio ambiente, interagiam. Eram mangue, sururu, carangueijo, dunas, lagos, pessoas felizes. Ai eles chegaram e se tornaram donos de tudo, colocando cercas, placas, proibições... Eles dividiram a comunidade, cercearam liberdades e não praticam vandalismo.

Aracati é tida como a segunda cidade depois de Fortaleza, com maior índice de drogas e prostituição infantil. Muitas vidas são ceifadas, principalmente de jovens. Mães que choram seus filhos e não são escutadas. Onde estão as políticas públicas para a juventude? O ensino de qualidade? Acessibilidade a cultura e ao lazer? O emprego? A comida na mesa? Roubam as vidas de nossos jovens e não são vândalos.

Multidões foram e continuam indo as ruas mostrar sua indignação, dizendo já não ser mais possível suportar o peso da desigualdade fruto do capitalismo, do lucro e do acúmulo. Os que gritam, cantam, dão o seu recado e vão embora são chamados de pacíficos. Aqueles que afrontam os poderes e apontam os causadores das feridas abertas são denominados de vândalos, são perseguidos e presos. O que é vandalismo? Alguém pode me ajudar a entender?