domingo, 3 de maio de 2015

CONSTRUÍNDO PODER POPULAR


 


"Sem o povo no poder,
 toda democracia é uma ditadura disfarçada."
Autor/a desconhecido/a

Por Josenilson Doddy

Como correlacionar poder com igualdade, se o poder lembra autoritarismo, superioridade de um ser sobre outro, onde quem obtém sente-se no direito de decidir a vida de um todo, sem nenhum senso de pensamento coletivo, fazendo de suas ações atos injustos e desiguais? És que daí surge uma enorme necessidade de se construir um poder que emane do povo para o povo, um poder que traga igualdade e não superioridade, onde cada um/a que participa soma e é fundamental em sua construção, pois este se consolida da união e da força desse todo.
Vivemos numa sociedade que nos manipula a todo instante, fazendo-nos obedecer severamente seus princípios hierárquicos, onde nos ensina a sermos passivos para não alterar a ordem de seu sistema, pois seu modelo beneficia claramente uns poucos que se dizem donos do poder e que, com isso, traçam muitas estratégias, utilizando todas as suas ferramentas no seu processo manipulatório, buscando manter seu sistema a todo custo, sendo que este prega um poder estabelecido através de uma ordem piramidal, onde a maioria (a base) sustenta as crises e movem todo processo evolutivo, mas é a minoria que decide e comanda tudo.
Porém, é nas crises que surgem as necessidades mais gritantes de organização daqueles que fazem parte da base da então pirâmide. Esse período vem acompanhado de muita aprendizagem e compreensão do modelo desigual que se vive. As insatisfações e a desvalorização da vida do povo fazem com que o mesmo comece a se organizar e a buscar a igualdade, contrariando a ordem do sistema que prega que a hierarquia é necessária para que a ordem das coisas se estabeleça e haja controle.
A organização do povo se dá pelo processo formativo, onde os mesmos podem compreender o porquê se organizar e lutar para conquistar essa igualdade efetiva e real de direitos. Se não houver esta compreensão, jamais haverá poder popular, pois o mesmo não se constrói apenas com muitas pessoas organizadas, mas sim com pessoas que compreendam o porquê estão se organizando e por quem estão lutando, pois de nada adianta se organizar para defender ideais que não favoreçam ao próprio povo.
O atual modelo de democracia é apontado como um dos caminhos de igualdade. Nela se diz que em uma sociedade democrática todos participam das tomadas de decisões e das mudanças estabelecidas. Porém, isso acontece de forma indireta, pois o modelo representativo é aliado ao poder hierárquico, onde o povo jamais terá a oportunidade de decidir algo que corresponda as suas necessidades. Aqueles tachados como representantes do povo não estão em prol do povo, mas sim dos que comandam o topo da pirâmide.
A situação em que se encontra a maioria da população é algo tão gritante, que as inquietações geradas fazem com que o povo vá às ruas e, com seus gritos, busquem a tão sonhada igualdade. Porém, muitas vezes estas pessoas vão porque se deixam levar pelo o sentimento de indignação, somente, podendo ser usadas, pois não se compreende porque e por quem estão lutando, defendendo por vezes ideais que jamais irão beneficiar o próprio povo.
O poder popular não se constrói apenas da organização do povo, mas sim de toda uma compreensão de quem é o povo, quais ideais defender, porque e para quem se luta, tudo isso fazendo parte do processo formativo. A partir desses aspectos é possível construir um poder que emane do povo para o povo e que seja capaz de derrubar todo esse sistema hierárquico em que vivemos. É através do poder popular que construiremos uma nova sociedade, igual e justa. “O povo que ousa lutar, constrói o poder popular!”.

domingo, 26 de abril de 2015

Rede Globo: 50 anos a serviço do capital



Um dos mitos do jornalismo, a imparcialidade, fica evidente quando se fala de Globo, pois são 50 anos de desserviço à sociedade e de apoio irrestrito ao capital. Durante esse período, a Globo fez questão de dizer de que lado estava, afinal de contas, sendo filha de quem é, a ditadura, não poderia ser diferente. Ela, que foi o principal grupo de telecomunicações beneficiada pela Política de Integração Nacional criada pelos militares, tornou-se porta-voz do regime.

Em seus 50 anos, a Rede Globo de Televisão vem comandando o novo coronelismo,"o coronelismo eletrônico", colocando interesses privados e privaticidas como sendo interesses públicos, configurando-se uma relação de clientelismo entre os meios de comunicação e o Estado, a serviço do grande capital. Essa prática, já em 1861 foi denunciada por Karl Marx em relação aos jornais londrinos que, segundo ele, "não representavam a opinião popular, mas a voz dos políticos que lhe dariam benefícios."

A relação entre as organizações Globo e o Estado é extremamente estreita e seu poder de influência é gigantesco. Tancredo Neves chegou a afirmar, numa conversa com Ulisses Guimarães, que brigava com o Papa, com a Igreja Católica, com o PMDB, com todo mundo, menos com o “Doutor Roberto”.

Vários episódios envolvendo a Rede Globo de Televisão dão conta de que não há o que se comemorar nesses cinquenta anos. Entre eles, podemos citar: a omissão durante a campanha pelas Diretas Já em 84, já que se tratava de uma ameaça ao regime militar; a fraudulenta edição do debate entre Lula e Collor, na eleição de 89, pois temiam a vitória de Lula; e, mais recentemente, a transformação das manifestações populares justas em vandalismo. 

Em nome de uma falsa liberdade de imprensa, os barões da mídia continuam construindo seus impérios e monopólios, amparados pelo Estado e prestando irrestrito serviço ao capital. Até mesmo o governo do PT, que se esperava fosse enfrentar essa ditadura midiática, acabou por render-se aos caprichos da "Senhora do Destino". 

Mas, como todo império, este também não é inabalável.Mesmo criminalizados, os movimentos populares continuam nas ruas, enfrentando o poder da mídia e gritando: O POVO NÃO É BOBO, FORA REDE GLOBO!




terça-feira, 14 de abril de 2015

CRISTIANISMO E COMUNISMO



Fortaleza, 14 de abril de 2015.
Por Thales Emmanuel*


 “Jesus foi o primeiro socialista: ele dividiu o pão e o vinho.” Quando o então presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez, fez esta declaração, muitas pessoas se incomodaram. A elite burguesa e seus porta-vozes logo condenaram como heresia marxista, mais uma justificativa para a derrubada do governo. Em uma parte da esquerda, ainda mergulhada em dogmatismos, a reação foi idêntica, muito embora o jargão de “desvio ideológico” transparecesse, ao menos auditivamente, certa proximidade com o materialismo histórico dialético.
Dom Hélder era outro que causava controvérsias parecidas com seus pronunciamentos. Para o fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a missão de promover a luta dos pobres por sua libertação é evangelização de Cristo, não obstante digam que é política, subversão ou comunismo. Foi nesse percurso que constatou que, ao dar comida aos pobres, o chamavam de santo; mas ao indagar pelas causas da pobreza, rotulavam-no de comunista.
Em 2014, ano passado, o “indigesto” papa Francisco também polemizou ao identificar, no que diz respeito à causa dos oprimidos, cristianismo com comunismo, afirmando, em tom alegre, terem os comunistas roubado a bandeira dos pobres, que, segundo ele, é cristã. No mesmo período, de forma inédita, reuniu-se com movimentos populares de todos os continentes e profetizou sobre o fim do capitalismo, devendo este ser substituído por uma “estrutura social em que o ser humano fosse prioridade”.
Esta semana, ao fazer memória a genocídios sofridos no século XX pela humanidade, Francisco citou o do povo armênio, o nazismo e o stalinismo. Curiosamente, ao referenciar um período específico e cheio de nebulosidades das experiências de transição socialista, o Bispo de Roma mais uma vez quebrou o protocolo oficial do Vaticano ao não direcionar a condenação ao comunismo enquanto projeto de sociedade.
Se supostos cristãos negam a luta de libertação dos oprimidos em nome da adoração a um deus distante e Todo Poderoso, e pretensos comunistas, em louvor a Totalidade Social, desprezam o auxílio pessoal e imediato a necessitados, não é responsabilidade nem de Jesus nem de Marx, pois suas propostas de vida plena e de emancipação humana continuam atualíssimas e desautorizando ambos os desvios.

*Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem terra (MST) e da Organização Popular (OPA).

domingo, 29 de março de 2015

Romper com o sistema de morte para que a Páscoa aconteça



O relato da paixão, no domingo de Ramos, diz que os chefes, os poderosos, os que tramaram a morte de Jesus incitaram o povo para que pedissem a sua condenação. E o povo começou a gritar: crucifica-o! Fiquei pensando sobre a lei de redução da maioridade penal que está para ser votada no Congresso. E o quanto continuamos, nos dias de hoje, pedindo a condenação dos inocentes.

O mesmo sistema que cria as desigualdades sociais, que marginaliza os pobres, os negros, os indígenas, as mulheres, os homoafetivos... é que depois trama a sua morte. Somos sabedores que o que se faz necessário é a ruptura urgente desse sistema de morte. A redução da maioridade penal não resolve o problema. É preciso atingir as causas. Onde estão as políticas públicas para nossa juventude? Educação de qualidade? O valor digno pelo trabalho executado?

Esses dias uma emissora de televisão exibiu várias matérias sobre crianças e adolescentes, mas com uma única intenção: mostrar os motivos, embora de maneira disfarçada, para a redução da maioridade penal. São os grandes e poderosos que continuam insuflando o povo para que gritem que os menores são vagabundos, deliquentes e violentos. E que merecem ser punidos.

E, na maioria das vezes, são pessoas fervorosas que estão na Igreja todos os dias comungando o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo que se tornam cúmplices daqueles que continuam crucificando Jesus nos dias de hoje. Enquanto pessoas que  nem se dizem católicas e nem professam em nenhuma outra religião estão defendendo a vida. Assumem com maior fidelidade elementos propostos pelo Reino de Deus.

Jesus vai até as últimas consequências na defesa da vida e do projeto da boa notícia que ele acredita. Tentaram intimidá-lo, mas ele continuou firme. É bom que nesse tempo da semana santa, começando pelo domingo de ramos, possamos nos questionar sobre que tipo de cristãos estamos sendo nós. Nos banqueteamos com o banquete de morte de Herodes ou estamos do lado daquele que propõe o banquete da vida plena?

A proposta do Reino de Deus não agrada a todos, pois mexe com interesses. É uma proposta que gera conflitos. Muitos que se colocaram contra esse sistema de morte, foram também, como Jesus de Nazaré, levados a tribunais, julgados, condenados e mortos. E com certeza muitos ainda o serão. O mais importante é continuar acreditando e lutando para que a páscoa aconteça.