quinta-feira, 9 de junho de 2016

FECHEM AS TORNEIRAS! ENQUANTO AS COMPORTAS PERMANECEM ABERTAS.

Por Josenilson Doddy*

O Brasil é considerado a maior potência hídrica do planeta, devido as suas tantas fontes e aos seus grandes reservatórios de água potável. No entanto, há algo contraditório, pois o mesmo está passando por uma crise hídrica, onde a escassez de água e as problemáticas com a falta deste bem tem sido algo muito visível e alarmante, principalmente para as comunidades rurais do sertão e regiões periféricas das grandes cidades.  

Antes, um problema que diziam ser somente da região Nordeste do país, hoje atinge toda a população, inclusive nas regiões Sul e Sudeste, como, por exemplo, o estado de São Paulo, que enfrentou a maior seca de sua história. Onde as pessoas das periferias sentiram na pele a mesma dor e tristeza que sentem os agricultores nordestinos. O quadro é tão alarmante que nem mesmo a mídia fascista, como a Rede Globo, consegue abafar, embora tente distorcer, centralizando a culpa no indivíduo e na parte da população que mais sofre com essa catástrofe, dizendo que fechem suas torneiras, como se isso resolvesse a crise e fosse a real causa do problema. 

O estado do Ceará passa por quatro anos de forte seca, que deve se estender por todo 2016, segundo a FUNCEME. Algo muito preocupante. Em novembro do ano passado, 80 açudes (de 153 no total) estavam com menos de 10% de sua capacidade e 139 municípios já se encontravam em situação de emergência por falta de água.  

No alto da Chapada do Apodi-Limoeiro do Norte-CE (a 198 km de Fortaleza), os moradores recebem em suas torneiras água contaminada com resquícios de diferentes tipos de agrotóxicos, o que faz desta água uma ameaça à saúde, dados estes de uma pesquisa da Faculdade de Medicina da UFC-Universidade Federal do Ceará. Esta contaminação é devido aos grandes projetos do agronegócio implantados na região. 

Ou seja, além destas empresas nacionais e multinacionais usarem quase toda a água da região com seus perímetros irrigados, ainda contaminam a que é de uso da população.  

A Termelétrica do Pecém consome 800 litros de água por segundo, fazendo faltar para 600.000 cearenses. Além desse uso exacerbado, a mesma é a maior emissora de CO2 do estado do Ceará, sendo que esta recebe 50% de desconto no pagamento de sua água, o que chega a ser um absurdo e uma falta de respeito para com a população.  

Pesquisas mostram que na região Jaguaribana do Ceará as empresas da carcinicultura (criação de camarão) gastam em média 60.000 mil litros de água para produzir apenas 1 quilo de camarão. Em apenas uma dessas empresas existem 60 poços perfurados para abastecimento dos tanques.  

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo também na distribuição de seus recursos hídricos. O controle de desperdício sobre o consumo individual precisa acontecer, mas não resolverá o problema, já que os maiores responsáveis continuam a exaurir toda água para atender suas planilhas de lucratividade, e nenhuma medida substancial é tomada para que eles sejam impedidos de destruir a vida.  

Enquanto não cortarmos o mal pela raiz, viveremos num mundo de caos, crises políticas, econômicas, sociais, ambientais e humanas. Ou derrubamos o sistema capitalista ou ele destruirá tudo.  

*Josenilson Doddy é militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e da Organização Popular (OPA).





sábado, 19 de março de 2016

Misericórdia, Justiça e Profecia!



*Pe. Antonio Julio Ferreira de Souza, C.Ss.R.

Conclamados pelo Papa Francisco, estamos vivenciando o ano da misericórdia. E chamados a sermos misericordiosos como o Pai. Esse tempo da Quaresma, com certeza, deve nos ter ajudado a entender os motivos e razões pelos quais, Jesus, o Filho, foi condenado e assassinado numa cruz. O seu crime foi por em prática, na sua ação missionária, a misericórdia. 

A prática de Jesus, acolhendo os marginalizados pela sociedade de seu tempo, incomodou os opressores do povo, os que detinham o poder político, econômico e religioso. Para eles, era melhor que as pessoas continuassem na situação de subserviência em que estavam acostumados. Jesus veio dar vista aos cegos, fazer surdos ouvirem, libertar os cativos e "proclamar um ano de misericórdia do Senhor". E foi por isso que armaram ciladas e perseguiram o justo. Eles fizeram a escolha de ficarem do lado de fora da festa, do banquete da vida.

Na bula de proclamação do jubileu extraordinário da misericórdia, intitulado o Rosto da Misericórdia, o Papa Francisco nos diz: "Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, a aliviá-las com o óleo da consolação, a enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas."

Instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres é o que os cristãos e a comunidade são chamados a ser, segundo o Papa Francisco escreve no livro a Igreja da Misericórdia. Somos desafiados a estarmos atentos aos clamores dos pobres, pois assim o fez o "Pai bom" que, não só ouviu, mas desceu para livrá-los das mãos dos opressores.

Esse jubileu da misericórdia não pode perder de vista esse viés e direcionar-se para uma misericórdia dissociada da justiça e da profecia. Quem disse que não é ano para denúncia? Para Francisco, "ficar surdo a esse clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, nos coloca fora da vontade do Pai e do seu projeto, porque esse pobre clamaria ao Senhor contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado."

*Missionário Redentorista, Militante da Organização Popular - OPA - e Jornalista .

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Benedito Tonho

                        Por Eliton Meneses*

            O dia começara quente sob o céu limpo do começo de agosto. Fazia dois meses da última chuva. Era preciso trabalhar a terra para o outro ano. Benedito Tonho pôs a enxada no ombro, segurou o laço da cabaça e se dirigiu sozinho para o roçado. Estava contente com a decisão da Justiça. Depois de tanta luta, a causa foi decidida de maneira justa, em favor do mais pobre. A terra era do povo, era da comunidade, era do agricultor que a cultivava há tantos anos. Estava feliz e aliviado. Valera a pena toda a luta. Agora contava até com uma sentença da Justiça. Ninguém ia mais ter coragem de dizer que era dono da terra alheia. Um papel carimbado da Justiça resolvia muita coisa.
            – As coisas só acontecem quando a gente faz as coisas acontecerem!
            O suor escorria na testa debaixo do seu chapéu de palha. Uma brisa leve amenizava o calor da manhã ensolarada. Dois bigodeiros cantavam num cajueiro e um urubu vagava no céu azul. O sertão estava verde depois do inverno regular. Benedito Tonho assobiava pensativo, enquanto aparava com a foice o excesso de mato da coivara. À noite haveria encontro da Pastoral da Terra com o pessoal das CEBs na comunidade. Era preciso discutir alguns pontos, reordenar o passo, encaminhar novos projetos. A luta do povo precisava continuar, sem medo. No final tudo se acertava. A justiça acabava prevalecendo.
            – Morrer na luta é heroísmo! Fugir da luta é covardia!
            De repente, o coro de cigarras cessou. Uma nuvem negra escondeu o sol do sertão e suspendeu a brisa até então amena. Na porteira, apareceu um homem desconhecido, que entrou no cercado lentamente em direção a Benedito Tonho. Quando avistou o sujeito a poucos metros de si, parado, Benedito Tonho fez questão de saudá-lo.
            – Olá, camarada! No que posso servi-lo?
            – Você que é o Benedito Tonho?!
            – Sou, sim, companheiro!
            Cinco tiros romperam o silêncio da capoeira. Benedito Tonho escutou os dois primeiros e sentiu imediatamente um aperto no peito e um gosto de sangue na boca. Com a face esquerda encostada na terra quente e os dedos cravados no chão, muitos pensamentos ainda lhe percorreram a mente enquanto os sentidos se esvaíam pouco a pouco.
            Pensou na mulher e nos meninos pequenos, no inverno do próximo ano, nos encontros da comunidade, na luta popular por direito, na igreja dos pobres... Antes do último suspiro, ainda balbuciou:
            – Companheiros, não desistam jamais de lutar!
            De repente, ergueu-se como um espectro e observou seu corpo estirado no chão e um homem correndo em fuga. Avistou também vários anjos em sua volta. Almas de pessoas que, como ele, haviam tombado na luta contra as injustiças sociais. Espíritos obsequiosos que o saudaram com efusão e o acompanharam, de mãos dadas, por uma estrada de luz.                                                   

                                                                                                                                 
 P.S.: Benedito Tonho foi uma liderança da CPT (Comissão Pastoral da Terra) e das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), morto, em 05 de agosto de 1986, aos 27 anos, a mando de um grileiro, na comunidade de Queimadas, Distrito de Ubaúna, Coreaú (CE), depois de ver reconhecida a legitimidade da sua terra, tendo-se convertido num dos símbolos da luta popular por direitos.


* Eliton Meneses é poeta e Defensor Público no estado do Ceará.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Admirável Mundo PET

Tinha tudo para ser um dia normal em PETlândia. Etileno de Escartável Filho acordara, como de costume, às 5 horas da manhã. Abriu os olhos, sentou-se à beira de sua cama de garrafas plásticas e, antes mesmo que lhe acertasse algum tipo de pensamento, ligou a televisão, moderno aparelho PET adquirido em suaves 50 prestações. Assistiu um pouco da programação com o pouco de tempo que dispunha. O noticiário matutino apresentava matéria sobre a final do campeonato nacional de futebol de tampinhas, paixão popular de uma época. O Enlatados Sport Club se consagrara campeão depois de 21 anos de jejum. Uma festa para a única maior torcida do país.
Sem desligar o aparelho de TV, levantou-se e, como era tradição, ajustou sua pintura de cabeceira, um retrato dos químicos britânicos Whinfield e Dickson, inventores do politereftalato de etileno, mais conhecido pela sigla PET. Rezou para a imagem e pediu que lhe abençoassem o dia.
Etileno era um nome comum em PETlândia, mas Etileno não acreditava ser apenas mais um Etileno entre os Etilenos. Eleito pela vigésima vez seguida funcionário do mês pela empresa de fast food PET´Donalds, conhecia bem a importância do fator pontualidade para conquistas profissionais e, como ansiava pelo dia em que seria promovido, acelerou os passos em direção à pia do banheiro. Ao se barbear, não se sabe por que motivo, lembrara do tempo de infância, quando assistia Super-PET, herói preferido. Riu com a recordação, terminou de se arrumar, desligou a TV e se foi.
Chegando ao emprego, cumprimentou o vigia eletrônico que, para sua surpresa, não o respondeu com o habitual “Bom dia!”. “Senhor Etileno de Escartável Filho, o setor de recursos humanos lhe espera para uma reunião em dois minutos.”
“A promoção!”, pensou. Talvez quisesse pular, gritar de alegria, abraçar e beijar o porteiro feito de material reciclável que lhe dera a notícia, mas, como se previa, nada disso faria. Seu desenvolvido senso profissional não permitiria manifestações tão pessoais, ainda mais ali, em seu ambiente de trabalho. E foi assim, sem saber que não sabia o que lhe esperava, que Etileno se dirigiu ao escritório de recursos humanos e, bem sentado, escutou da assistente social eletrônica o comunicado:
“Senhor Etileno Filho, nós, da PET´Donalds Fast Food, agradecemos-lhe por todos esses anos de colaboração em que crescemos e aprendemos juntos. Infelizmente, em virtude da crise, precisaremos desfazer seu vínculo empregatício. Seus direitos já foram devidamente calculados e estão à disposição no caixa ao lado. Novamente agradecemos. Tenha um bom dia!”
Não fosse a mensagem padrão destinada ao funcionário padrão, jamais teria Etileno se sentido como mais um Etileno.
Procurou um espelho ali mesmo, mas não havia espelhos na empresa.
Precisava urgentemente se olhar, identificar-se.
Correu então para casa e, na mesma pia em que se barbeara pela manhã, enxergou-se, de forma inédita, diferenciado. Não mais como Etileno sobre Etilenos ou Etileno entre Etilenos.
Pelo reflexo, percebeu algo estranho em seu rosto - ao mesmo tempo que percebia que perceber era o fato mais estranho já experimentado em toda sua vida. Arregalou os olhos de espanto e, aproximando-se vagarosamente do espelho, tocou, com a ponta dos dedos, no bizarro objeto: era seu nariz, uma tampa vermelha de PET-Cola de dois litros.


Thales Emmanuel, militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).