domingo, 13 de maio de 2018

A Paixão de Cristo na Paixão dos LGBT*

Foto: Reuters/João Castellano


Por Luís Corrêa Lima1 

O padre Júlio Lancellotti trabalha corajosamente na cidade de São Paulo com população de rua. Ele relata a situação dramática que encontra:  

Na missão pastoral tenho conversado com vários LGBT que estão pelas ruas da cidade, alguns doentes, feridos, abandonados. Muitos relatam histórias de violência, abuso, assédio, torturas e crueldades. Alguns contam como foram expulsos das igrejas e comunidades cristãs, rejeitados pelas famílias em nome da moral. Testemunhei lágrimas, feridas, sangue e fome. Impossível não reconhecer neles a presença do Senhor Crucificado!2

Esta sensibilidade espiritual é profundamente cristã, pois o Filho eterno de Deus ao se tornar humano é solidário com toda humanidade, especialmente os pobres e os que sofrem. É o próprio Jesus que diz: “tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber [...] pois todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 31-46). Ele se identifica com famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. Na sua crucifixão, Jesus se torna solidário com todos os crucificados da história, com todos os que sofrem brutal e injustamente, incluindo os LGBT. Mas a Sua paixão é desqualificada pelos seus adversários que sordidamente dizem: “Salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27,40). 

A violência contra LGBT tornou-se mais evidente por causa de sua visibilidade no mundo atual. No passado, para se defender da intolerância e da hostilidade, muitos deles viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Vários gays e lésbicas se escondiam no casamento tradicional, constituído pela união heterossexual, para não manifestarem sua condição. Travestis e transexuais não tinham acesso aos procedimentos de transexualização hoje disponíveis. Em alguns lugares formavam guetos, que eram espaços de convivência bastante reservados como forma de proteção dos indivíduos. Atualmente a situação é bem diferente. Muitos deles fazem grandes paradas, estão presentes em filmes, programas de televisão, olimpíadas, empresas, escolas e outras instituições; buscam reconhecimento, exigem ser respeitados e reivindicam os mesmos direitos e deveres dos demais cidadãos. Esta população está em toda parte. Quem não faz parte dela, tem parentes próximos ou distantes que fazem, velada ou manifestamente, bem como vizinhos ou colegas de trabalho. 

A aversão aos LGBT produz diversas formas de violência física e verbal. Há pais de família que já disseram: “Prefiro um filho morto a um filho gay!”. Há avós que já disseram: “Prefiro vinte netas putas a uma neta sapatão!”.  Não são raros travestis, gays e lésbicas expulsos de casa por seus pais. Entre os palavrões mais ofensivos em português, constam a referência à condição homossexual (veado!) e ao sexo anal, comum no homoerotismo masculino. Ou seja, é xingamento. Muitas vezes, quando se diz: “fulano não é homem”, entende-se que é gay; ou “fulana não é mulher”, que é lésbica. Ou seja, ser homem ou mulher supostamente exclui a pessoa homossexual. Esta aversão se enraíza profundamente na cultura. No Brasil são muito frequentes os homicídios, sobretudo de travestis. Não raramente, estes homicídios são cometidos com requintes de crueldade. Há também suicídios de muitos adolescentes que se descobrem LGBT, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por sentirem a hostilidade da própria família, da escola e da sociedade. Calcula-se que o índice de suicídio nesta população é cinco vezes maior que no restante. Toda esta hostilidade com inúmeras formas de discriminação, mesmo quando não leva à morte, traz frequentemente tristeza profunda ou depressão. 

Curiosamente, esta realidade está ausente em muitos documentos da Igreja Católica. Ao se falar de pobres, excluídos e pessoas que sofrem, menciona-se frequentemente: migrantes, vítimas da violência, refugiados, vítimas de sequestro e tráfico de pessoas, desaparecidos, portadores de HIV, vítimas de enfermidades endêmicas, tóxico-dependentes, idosos, meninos e meninas vítimas da prostituição, pornografia, violência ou trabalho infantil; mulheres maltratadas, vítimas de exclusão e exploração sexual, pessoas com deficiência, grandes grupos de desempregados, excluídos pelo analfabetismo tecnológico, moradores de rua em grandes cidades, indígenas, afro-americanos, agricultores sem terra e mineiros3. Infelizmente, falar de LGBT ainda é incômodo em muitos ambientes. Não raramente, o sofrimento desta população é ignorado ou silenciado. 

Para representar a violência sofrida por eles e elas, a travesti e atriz Viviany Beleboni encenou uma crucifixão em uma parada em São Paulo. Depois disto, ela mesma foi agredida violentamente duas vezes como forma de retaliação. Levou chutes, sofreu cortes no corpo, teve hematomas e dentes quebrados. Sobre a segunda agressão, feita por cinco homens, ela relata algo revelador sobre a motivação dos agressores: 

A todo momento falavam que eu era um demônio, que essa raça tinha que morrer. Recitavam passagens da Bíblia ou que diziam alguma coisa relacionada à Bíblia. Falavam em Romanos e coisas como “não te deitarás com um homem, como se fosse mulher” e muitas palavras que não entendia, como se fosse em outro idioma. Eles diziam também “traveco vira homem”, “praga da humanidade”. Ofensas e Chutes. Quero esquecer4. 

Lamentavelmente, estes agressores fanáticos utilizam a Palavra de Deus, tirando-a do contexto em que foi escrita, para justificar a demonização do outro e a agressão brutal. Tornam-na uma palavra de morte, um instrumento diabólico. Dela extraem “balas bíblicas” disparadas impiedosamente contra homossexuais e transgêneros. 

A hostilidade a LGBT não é gratuita. Há importantes indicações de que o preconceito contra esta população seja um temor inconsciente do coração humano que se recusa a reconciliar-se com a própria verdade. O medo do perigo de contágio, fanatismos, rigorismos e repugnâncias em relação eles e elas revelam uma necessidade de ocultar a verdade sobre a própria existência, ou sobre impulsos interiores. Na base dos preconceitos, há frequentemente o medo de perder a própria segurança diante do que é diferente, estranho e desconhecido, catalogando-o por isso mesmo como perigoso e inferior. Quanto maiores o fanatismo e a repugnância, provavelmente existe também uma maior necessidade de ocultar a própria existência, ou uma plena recusa a reconciliar-se com a própria verdade.  

Júlio Lancellotti reconheceu a paixão de Cristo na população de rua LGBT. Viviany Beleboni a representou e a sofreu. Recentemente Marielle Franco foi assassinada. Ela era bissexual e defendia os direitos humanos de diversas populações. A paixão de Cristo consequência de Sua vida e luta em favor do anúncio do Reino de Deus. Não deve ser jamais desqualificada. O Seu corpo é dado e o Seu sangue é derramado pela salvação da humanidade. Não nos esqueçamos dos crucificados da história com os quais o Cristo é solidário, nem deixemos que os desqualifiquem e esqueçam. Cultivar a memória deles e delas é trilhar o caminho que conduz à ressurreição. 


*Texto publicado originalmente em Informativo Redentorista - Vice-Província de Fortaleza, edição X.

1 Luís Corrêa Lima é padre jesuíta e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Trabalha com temas de modernidade, história da Igreja, diversidade sexual e de gênero. 
2 LANCELLOTTI, J. Postagem, 9/6/2015. .
3 CELAM. Documento de Aparecida, 2007, n. 402.
4 QUERINO, Lucas. “Viviany Beleboni é espancada novamente por cinco homens: ‘Demônio’”. 12 jul. 2016. Disponível em: .


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Karl Marx



Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas, se já escutou algum comentário a respeito de suas ideias, dificilmente não se sentiu instigado, instigada a se posicionar. Discursos o descrevem com amor ou ódio. Difamações e interpretações dogmatizadas de sua obra não faltam. Provas de vestibular tentam, sem sucesso, vesti-lo com uma impossível neutralidade acadêmica. Muitos se valem de seus ensinamentos para melhor compreensão da sociedade e sua dinâmica, ainda que não o saibam ou mesmo não o reconheçam.
Karl Heinrich Marx nasceu no dia 5 de maio de 1818, numa pequena cidade chamada Trier, ou Tréveris, atualmente território da Alemanha, como terceiro filho, de nove, de um casal de tradição religiosa judaica. Pai advogado e mãe dona de casa, Marx viveu num dos períodos politicamente mais efervescentes da Europa, quando se desembrulhavam as transformações oriundas da Queda da Bastilha, de 1789. A roda da história girava para fazer do capitalismo sistema dominante, dando o adeus definitivo à Idade Medieval.
Na faculdade, inicialmente de direito, depois migrando para filosofia, assumiu para si as ideias progressistas de seu tempo, o que lhe trouxe inúmeros conflitos com estudantes de pensamento conservador. Ao concluir o curso, até teve intenção de seguir carreira acadêmica, mas a universidade se fechara a pensamentos que estivessem fora da caixinha ortodoxa.  Em meados de 1842, abraçou então a carreira jornalística.
No jornalismo, Marx continuou se posicionando criticamente contra as ideias do atraso, dominantes numa Alemanha ainda fortemente medieval. Na Gazeta Renana, pertencente a membros da burguesia liberal, sofreu seguidamente com a censura, até renunciar em março de 1843. "Marx morreria por seus pontos de vista, de cuja verdade ele está absolutamente convencido", declarou o censor da época.
Ainda na Gazeta Renana, um episódio de injustiça social influíra decisivamente para mudança de rumo em sua vida. Por conta do avanço da indústria, camponeses começaram a sofrer restrições na retirada de madeiras, algo que era direito de costume e também essencial à sobrevivência das famílias. Marx se pôs em defesa dos trabalhadores, mas sentiu a necessidade e de ir além do posicionamento ético e entender a fundo os motivos que levavam o Estado a agir daquela forma. Mergulhou então nos estudos de economia, jornada que acompanharia toda sua trajetória política.
Sem espaço de atuação em seu país de origem, foi para a França, onde o contato direto com o movimento operário foi decisivo para que agarrasse com coração e mente a luta da classe trabalhadora. Foram os operários que, mais significativamente, evangelizaram Marx para a causa comunista. Os mesmos operários que, posteriormente, fariam das ideias sistematizadas por Marx seu principal instrumento de libertação.
Sua militância em organizações e ações revolucionárias e, principalmente, a revelação nua e crua da realidade por parte de sua teoria, atraiu contra si e sua família a perseguição dos poderes constituídos. Expulsos de países onde residiam, encarcerados, adoentados, passando por privações materiais que levaram a óbito quatro de seus sete filhos, Jenny, companheira e essencial colaboradora, emotivamente esmorecida com a partida de mais um de seus amados rebentos, escreveu-lhe: "Tudo que fazemos pelos outros é tirado de nossas crianças."
No dia 14 de março de 1883, Karl Marx adormeceu para sempre, "sem testamento e sem pátria". "O homem mais odiado e caluniado de seu tempo", segundo Engels, companheiro de todas as horas e parceiro em inúmeras empreitadas, "morreu honrado, amado, chorado por milhões de companheiros operários revolucionários (...)." Duzentos anos depois de seu nascimento, seu legado segue vivo entre os que lutam, abominado pelos que dominam e em ansiosa expectativa pelo dia em que se encontrará com as grandes massas oprimidas, festejando a conquista de um novo amanhã.
Ideias
Outro dia, um comentário de fez-se buque dizia: “Karl Marx é o demônio. Fica criando guerra entre nós com essa tal de ‘luta de classes.’”
É relativamente comum ler e escutar esse tipo de coisa, mas, bem se diga, não foi Marx quem inventou “essa tal luta de classes.” O conflito de interesses entre ricos e pobres não é fruto de uma imaginação perversa, doentia, ávida por sangue. Mil oitocentos e poucos anos antes do pequeno Karl vir ao mundo, Jesus de Nazaré mesmo já advertia: “Mais fácil é passar um camelo no fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus”. Não foi Marx quem incitou Spartacus a rebelar-se contra a escravidão no Império Romano. Zumbi e Antônio Conselheiro não leram o Manifesto do Partido Comunista para organizar o Quilombo dos Palmares e Belo Monte. Não havia nenhum marxista entre os revoltosos camponeses da Idade Média. Também não foi Marx quem criou a luta pela retomada das terras indígenas na América Latina, a rebeldia operária e muito menos a intolerância patronal. O que ele fez com sua teoria foi nos proporcionar a consciência da existência da luta de classes e de suas causas históricas, além de apontar caminhos de superação.
Para Marx, o surgimento e desenvolvimento histórico da propriedade privada, primeiro da terra, depois de outros meios de produção, como a indústria moderna, dividiu a sociedade em classes com interesses antagônicos entre si. De um lado, os proprietários; de outro, os sem propriedade, estes submetidos ao domínio dos primeiros. Donos de escravos e escravizados, senhores feudais e servos camponeses, colonizadores e colonizados, capitalistas e trabalhadores assalariados. Quem detém a propriedade dos meios de produção, controla também o trabalho e a destinação de seus frutos.
Em seu estudo do modo de produção capitalista, é possível constatar a olho nu ou mesmo sentir na pele várias dessas verdades. Por exemplo, a origem das desigualdades sociais Marx atribui à exploração do trabalho. O salário, para ele, representa apenas uma parte, em geral proporcionalmente muito pequena, de tudo o que o trabalhador, a trabalhadora produziu. Uma explicação para o fato de pedreiros construírem mansões, mas morarem em barracos de aluguel. A finalidade do salário tem a ver com a reposição necessária de energia e a manutenção dos elementos característicos da profissão, imprescindíveis à nova jornada de exploração marcada para o dia seguinte. Além disso, o salário deve possibilitar minimamente a reprodução biológica da classe produtora, garantindo a perpetuidade da dominação. Ao subtrair o pagamento da força de trabalho do montante produzido, o que resta é o valor não pago, chamado por Marx de mais-valia, que fica sob controle do capitalista, do patrão, proprietário da fábrica, das máquinas, que, por sinal, também dependem das mãos de quem trabalha para existir e funcionar. Amar o inimigo, para o revolucionário alemão, é desmanchar aquilo que o torna inimigo. Para tanto, para libertar a humanidade da exploração e da miséria, Marx acredita que a classe trabalhadora precisa se organizar e lutar pela socialização dos meios de produção. Socialismo é o nome dado à sociedade onde quem trabalha e produz, também administra e governa.
Marx expôs a racionalidade, a lógica de funcionamento do sistema capitalista. Todos os demais elementos e fenômenos sociais (política, religião, educação etc) se ligariam de algum jeito a uma ou outra classe, a um ou outro interesse de classe, colocando-se ou como conservador ou transformador desta mesma ordem social, conscientes disso ou não. Nesse contexto, a predominância das forças pertenceria à classe que detém o poder econômico, a propriedade dos meios de produção. “As ideias dominantes são as ideias da classe dominante.” Com essa explicação, não é difícil entender porque muitos trabalhadores explorados se posicionam contrários à luta de seus irmãos trabalhadores que combatem a exploração. As mídias também se ligam predominantemente aos interesses de classe dominantes.
Muitas e indissolúveis por si só são as contradições oriundas das entranhas da ordem social do capital. Elas mostram que alguns problemas enfrentados pela humanidade atualmente, questões que chegam inclusive a colocar a vida da espécie humana em risco, dependem diretamente da superação do próprio sistema para serem resolvidos. Como, por exemplo, o esgotamento acelerado da natureza, posta a serviço do lucro na desenfreada corrida empresarial para se produzir mais em menos tempo. Disputa que premia a empresa vencedora com o mercado da concorrente derrotada. Nessa lógica, própria do capital, quem se preocupar de vera com a preservação ambiental, fica pelo meio do caminho.
O desemprego é outro imbróglio que o sistema não pode e nem vai querer resolver. A tecnologia, no capitalismo, serve aos interesses do lucro, e não à humanidade. Assim, quando a máquina substitui o trabalhador, a trabalhadora, não representa um alívio para a labuta diária, mas o aumento da população de “descartáveis”. Sem contar que a miséria de fora aumenta a pressão para a superexploração de quem está dentro. “Se não quiser, tem quem queira.” A consequência são três quartos da população do planeta sem acesso à felicidade transmitida nas novelas e propagandas comerciais. Para a imensa maioria, o capitalismo não deu certo!
Marx demonstrou cientificamente ser praticamente impossível uma saída por cima. Para ele, “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” Sua teoria não visava modelar o movimento operário, mas fornecer-lhe elementos para uma práxis consequente, tendo como horizonte a superação da sociedade de classes, a construção do “reino da liberdade”. Sobre o mau uso de suas palavras, chegou a declarar informalmente ao amigo Engels: “Não sou marxista”.
Suas ideias também chegaram à Igreja. Progressistas se valem delas para melhor entender o papel da pessoa cristã num mundo marcado por graves pecados sociais. Já a ala conservadora da instituição, por motivos óbvios, faz como a mensagem lida no fez-se: o demoniza.
Cabe-nos conhecê-lo por nós mesmos, confrontar seus ensinamentos com o mundo a nossa volta e, com base no que pretendemos testemunhar em vida, extrair desse contato as devidas lições.

Fontes para aprofundamento:
O jovem Marx. Filme dirigido por Raoul Peck.
Método em Marx. Vídeo-aula com José Paulo Netto.
Trabalho assalariado e capital. Livro de Karl Marx.
Cristianismo e marxismo. Livro de Frei Betto.

Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Texto publicado originalmente em Informativo Redentorista, Vice-Província de Fortaleza. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

deus Mercado e o Dogma da Dívida Eterna*


Por Thales Emmanuel**

“Todos acreditam em Deus, porque Deus é aquilo que colocamos em primeiro lugar.” As palavras do padre Albert Nolan nos conduzem a uma inevitável e importante reflexão: Quem é Deus, para mim? Que deus governa a sociedade em que vivemos? As perguntas aparecem separadas por questão puramente metodológica, já que é impossível saber quem eu sou e, consequentemente, a ideia que tenho do divino, separando-me do meio em que construo relações sociais e que, ao mesmo tempo, sou construído por elas.  
Se Deus é sinônimo de prioridade de vida, como sugere Nolan, deduzimos então que as crenças, tanto individuais como sociais, revelam-se mais pelo que se é experimentado, praticado, do que pelo que se é falado. Assim, as respostas sobre “quem é Deus?”  se encontram, para o indivíduo, no seu fazer cotidiano; para a sociedade, na forma como organiza e estrutura suas prioridades.
O deus que comanda a sociedade capitalista se chama Mercado. Mercado é um deus que se manifesta à primeira vista pela total devoção dos seres humanos ao mundo das coisas. Sua teologia é simples e fácil de entender: quem possui bens, é gente de bem; quem não possui, nada é ou é sujeito do mal. Quem tem mais propriedades é mais ungido do que os proprietários menores e os sem propriedade são os escolhidos para servir, como descartáveis, à penitência do trabalho assalariado. Isso quando há oferta de emprego, algo cada vez mais raro, já que a tecnologia, enquadrada no rito devocional que sacraliza a propriedade privada dos meios de produção, substitui de forma acelerada o ser humano pela máquina. O espírito que rege a sobrevivência dos sem emprego, deus Mercado batizou com o nome de “empreendedorismo”. E o Estado, ao invés de promotor de direitos, revelou-se como sendo a força pela qual o todo poderoso opera o milagre de fazer com que a maioria se submeta aos interesses da minoria.  
Os bancos assumem hoje em dia o papel de sumo sacerdote do sistema. São os principais intermediários da relação entre Mercado e a sociedade em geral. Definem critérios de desenvolvimento econômico, políticas de Estado e acorrentam nações inteiras com o dogma da “dívida pública”. Quem ouse questionar esse dogma, corre sérios riscos de excomunhão. Entra governo, sai governo, e nada se fala, muito menos se faz, para auditar a dívida.
“Auditoria é um instrumento para investigação de dados e documentos.” Uma maneira de saber quem contraiu a dívida, em que condições, quem se beneficiou com ela, em que foram aplicados os recursos, que fatores a fizeram crescer e o que há de fraudulento e de legítimo em todo o processo. No Equador, uma auditoria oficial realizada pelo governo a partir de 2007 resultou na anulação de 70% da dívida externa em títulos daquele país. No Brasil, o governo golpista de Michel Temer oferece como sacrifício os direitos da classe trabalhadora e do povo mais empobrecido em honra ao juramento feito no altar da bolsa de valores. Aproximadamente 40% do Orçamento Geral da União atualmente é  revertido para pagamentos de juros e amortização. Para termos noção do tamanho da violação, em 2011, menos de 0,01% do Orçamento da União foi “investido” na área de habitação. Valor este reduzido à nada com a recente imposição golpista do congelamento por vinte anos em investimentos sociais. E o Brasil com suas 33 milhões de pessoas sem teto! 
Já se perguntou algum dia quantas vidas são sacrificadas em adoração de Mercado? Esse deus não se comove ante o genocídio planejado. Ele inventou a culpa foi para os endividados, não para os credores.
Estudos estimam que a dívida pública da América Latina já foi paga integralmente mais de seis vezes. No entanto, na maioria dos países ela continua aumentando a passos acelerados. No Brasil, em 2011 seu estoque alcançou o montante de 3.228.167.962.882,24 (3 trilhões, 228 bilhões, 167 milhões, 962 mil, 882 reais e 24 centavos). Em 2017, a cifra alcançou os 5.580.745.791.677,64 (5 trilhões, 580 bilhões, 745 milhões, 791 mil, 677 reais e 64 centavos), segundo dados do Banco Central, citados pela iniciativa popular Auditoria Cidadã da Dívida. 
A grande mídia, responsável por espalhar a boa nova de Mercado, explica o fenômeno do “quanto mais se paga, mais se deve” como sendo mistério sobrenatural ou obra da imperfeição humana. Expiação necessária à salvação do desenvolvimento do modelo econômico. No entanto, o fato é bem outro. Nada de mistério ou incapacidade administrativa! Trata-se é de uma perversa lógica de concentração de riquezas.
Os bancos não emprestam com a finalidade de um dia verem as dívidas quitadas. Com as exigências que fazem como condição a concessão do recurso, sentenciam o que deve ser o grosso da política econômica do país recebedor. Alteram leis, definem o destino prioritário da aplicação do que sai dos cofres públicos, interferem na regulamentação do sistema eleitoral e por aí vai. A decisão governamental pela privatização do patrimônio público, por exemplo, passa pelo aval e pela ordem dos bancos, que ficam com o montante apurado, como manda a lei. A dívida não existe para ser quitada, mas para ser paga uma, duas, setenta vezes sete vezes.
Quem acredita na dívida eterna sabe que ela quebrará quantas vezes for possível a economia do país devedor, forçando-o recorrentemente a contrair novos empréstimos, que não aparecerão antes que os votos de total obediência ao mais recente pacote de exigências seja renovado. Enquanto o povo, a classe trabalhadora, é predestinado do alto a pagar a conta até que a morte os separe, oito banqueiros possuem mais riqueza do que a soma das rendas de metade da população do planeta, equivalente a 3,8 bilhões de pessoas. Por essa razão é que o poeta, tornando-se infiel à vontade de Mercado, questiona: qual crime maior, roubar um banco ou fundá-lo?
O regime militar-empresarial iniciado com o Golpe de 1964 agravou tanto o problema da dívida pública, que comissões parlamentares para investigação das razões da crise foram montadas a partir da década de 1980. Relatórios apontam graves indícios de irregularidades, ilegalidades, além de renúncia à soberania nacional. Revelações que deveriam levar à nulidade, à suspensão imediata do pagamento. Mas, ao invés disso, seguem abafadas, engolidas pela mídia, pelo poder judiciário, pelo congresso e por sucessivos governos que rezam na mesma cartilha.
A próxima graça ambicionada pelos bancos representa mais um grave crime contra o povo brasileiro: a destruição da Previdência Social. As ruas adiaram sua consumação, mas, se não cuidarmos, logo em breve ela estará em pauta novamente.
A sociedade, cujo deus é o mercado, existe embasada em um pecado estrutural, institucional: a desigualdade social. Atendendo à vontade do Pai, Jesus fez bem diferente. Encarnou o divino no amor ao próximo, transformou a economia em comunhão radical de bens e o poder em serviço, coletivizando as decisões. Em seu cotidiano, nem o sábado escapou de seu testemunho de organização popular nem a cerca o impediu de saciar quem tinha fome. Jesus priorizou a vida com a própria vida, a dignidade da pessoa humana, combatendo aquilo que se punha em sentido contrário.
Ensinou-nos que, para afirmar o Deus da vida, é preciso negar o deus Mercado. Não se pode servir a ambos. De modo que a luta pelo não pagamento da dívida pública ou mesmo por uma auditoria oficial, com participação popular e poder de deliberação, tornam-se, na atual conjuntura, bandeiras que, indiscutivelmente, contribuem para fazer dessa terra o céu de todos.
Mais informações: www.auditoriacidada.org.br 
*Publicado originalmente em Informativo Redentorista, fev/mar de 2018.
**Thales Emmanuel é militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

terça-feira, 13 de março de 2018

Um Galileu Suspeito nos Morros do Rio*


Por Thales Emmanuel**

- Mãe, por que há sempre muitos soldados em todo lugar que andamos? 
Jesus nasceu e cresceu numa sociedade militarizada, dominada por um império estrangeiro que impunha ao povo, além de altos tributos e total obediência, uma estrutura social baseada na concentração da propriedade privada da terra e de outros meios de produção. Os ricos da Palestina eram protegidos e, ao mesmo tempo, servidores dos interesses de Roma. Em nome de César, autodeterminavam-se o direito de barrar qualquer investimento social para, com o uso da espada, empobrecer, segregar e escravizar a maioria da população.
- Mãos na cabeça, galileu vagabundo! 
A Galileia, região onde Jesus nasceu e viveu boa parte de sua vida, era tão marginalizada pela classe dominante como os morros do Rio de Janeiro. Ainda jovem, Jesus teve que conviver com frequentes baculejos. Tinha os atributos que os soldados denominavam “perfil suspeito”. Era preto, pobre, vestia-se com simplicidade e falava em aramaico, língua do meio popular. Sua casa e as da vizinhança eram invadidas na madruga sem mandados judiciais. Pessoas arrancadas para interrogatório sumiam misteriosamente. Quando levaram Amarildo, habilidoso pedreiro da vila de Nazaré e seu colega de infância, Jesus chorou lágrimas de sangue no colo de uma mãe preocupada com o futuro. A chamada Pax Romana, a “paz sem voz”, período de relativa estabilidade do domínio imperial, se impunha pela violência contra a classe que produzia a riqueza que os grandes proprietários usurpavam, acumulavam e usavam para financiar as ações da repressão. “Aê, Pilatos, para assegurar o sucesso de nossa política de segurança pública, quero garantias para agir sem que surja uma nova Comissão da Verdade”, exigiu o interventor Herodes Villas Bôas. 
- Mãe, preciso partir! 
Quando as Unidades de Polícia Pacificadora de César se instalaram na Galileia e uma delas decapitou seu primo, João Batista, só por ele ter falado publicamente umas verdades, Jesus se indignou tanto, que decidiu sair de casa para se tornar militante na construção de uma nova sociedade. Uma em que não houvesse imperadores nem senhores, sem opressão, em que poder fosse sinônimo de serviço; uma sociedade que batizou com o nome de Reino de Deus. Enquanto a resistência e luta do povo lhe alimentavam com imprescindíveis exemplos, os soldados de Roma condenavam como bandidos e crucificavam todas as pessoas que de alguma forma se contrapunham às ordens de cima. A Mídia dos Altos Sacerdotes do Templo de Jerusalém fazia sua parte manipulando as mentes pela disseminação de ódio contra os que se colocavam a serviço da causa dos oprimidos. Quarenta dias antes da Páscoa do ano 32, todos os integrantes de um grupo cultural da Galileia, chamado Paraíso do Tuiuti, foram crucificados por criticarem, em suas alegorias e canções, a exploração que pesava sobre o povo. “No dia em que a Galileia descer e não for carnaval, ‘ordem e progresso’ terá outro sentido afinal/ Não tem órgão oficial nem governo nem liga, nem autoridade que compre essa briga, ninguém sabe a força desse pessoal/ É só a Galileia descer sem ser carnaval’”, expressava corajosamente a letra de uma das canções. 
O final dessa história todos nós conhecemos. Com a ressurreição, Jesus veta aos donos do poder a última palavra e o projeto do Reino se reinventa à cada época. Sinal de que essa história é uma história gestando um final. 
- Filho, eis-me aqui! 

*Publicado originalmente em Informativo Redentorista.
**Thales Emmanuel é militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

sábado, 28 de outubro de 2017

OPA e os desafios da construção do Poder Popular


Por padre Júlio Ferreira* 
A Construção do Poder Popular foi a tônica do encontro regional da OPA - Organização Popular -, que aconteceu de 04 a 06 de outubro em Aracati - Ceará. A História da Revolução Russa nos serviu de análise da conjuntura e base para adentrarmos ao tema. Nada melhor do que se partir de experiências vividas para a compreensão do que se quer construir. 
O projeto de Poder Popular é algo latente, que pulsa nas veias e bombeia o sangue dos militantes e das militantes das causas populares em tempos e espaços diversos. Segundo o MCP - Movimento das Comunidades Populares -, o Poder Popular é a organização permanente de todo o povo em seus locais de moradia, trabalho e estudo. É algo construído de baixo para cima, a partir da base.
Para o pensador marxista uruguaio, Raul Zibechi, o Poder Popular é algo distinto do Estado e que está em conflito com ele, seja num governo de direita ou de esquerda. "O Poder Popular é uma auto-organização de sujeitos revolucionários." Ainda, segundo Zibechi, "nos espaços onde predomina o Poder Popular não poderá ser reproduzida a lógica capitalista. Aí deverão ser potencializadas as práticas comunitárias, socialistas, coletivas, comunistas." "Tem de ser um poder diferenciado," diz ele.
Segundo Ademar Bogo, para o projeto de Poder Popular ser vitorioso é de fundamental importância que se leve em conta duas coisas: a cultura e a luta de classes. "Não pode haver um projeto de sociedade futura sem considerar e sem valorizar a cultura popular". Continua ele: "O projeto é de classe, mas contempla o popular que circunda a classe, quando as forças populares, esperançosas por mudanças, se vinculam ao projeto consciente e solidário formulado pela classe organizada." 
No processo de construção do Poder Popular, um fator que não pode ser esquecido é o poder midiático. O Poder Popular passa também pelo controle da comunicação. Por isso, diz Leopoldo Volanin, é necessária uma reação em conjunto dos movimentos e da sociedade civil organizada para contrapor-se a essa ditadura midiática. "A democratização dos meios de comunicação será a via mais rápida para por fim a conflituosa relação entre mídia e movimentos sociais, sinaliza. 
Esse tema continuará sendo pauta de estudo dos grupos de base para aprofundamento e será retomado no próximo encontro da OPA, nos dias 08, 09 e 10 de dezembro, em Teresina - Piauí. 


*Padre Júlio Ferreira é Missionário Redentorista e militante da OPA.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

OPA e PJ realizam panfletagem em memória dos 100 anos da Revolução Socialista na Rússia



Por Caroline Cirqueira*
Hoje, 25 de outubro, de acordo com o calendário juliano, faz 100 anos que aconteceu a Revolução Socialista Russa. Naquele tempo, os camponeses e trabalhadores lutavam por melhorias sociais, por direito à terra, por uma vida digna, sem exploração.
A Revolução Russa nos ensinou que precisamos estar atentos... Nós também precisamos lutar! Sair do comodismo que a mídia nos oferece na bandeja diariamente (e ainda trazendo uma xícara de café, para que continuemos deitados e felizes, como se tudo estivesse perfeito) e indagar o porquê da crise, o porquê de tantos trabalhadores e trabalhadoras não receberem um salário digno, o porquê do dinheiro e do lucro ficarem na mão de minorias, o porquê da seca que maltrata o povo, o porquê das terras em mãos de grandes empresários, o porquê de tanta violência em escolas e bairros, o porquê de lotação em penitenciárias, o porquê de tantas mortes a todo instante, o porquê de projetos visualmente deslumbrantes, mas que oprimem o sujeito que nele pertence, o porquê da centralização midiática, são infinitos os porquês...
Mas, para mudar isto, não adianta falar somente da importância do seu voto, é necessário mais. Não adianta fantasiar uma situação de jogar uma bomba no Congresso. Não adianta refletir e não agir. É preciso ter garra para conhecer as realidades, os povos oprimidos. É preciso enxergar. Perguntem, sejam curiosos, corram atrás da verdade, só assim é possível sentir a inquietação de querer mudar essa sociedade. Quem ousa lutar, um dia há de vencer.
E, nesta luta, a PJ (Pastoral da Juventude) da Paróquia São José Operário e a OPA (Organização Popular) de Teresina panfletaram nas ruas da Comunidade Bom Jesus, buscando levar informações e o verdadeiro sentido de esperança e garra que a Revolução Russa nos proporciona até os dias de hoje.
Cada semente plantada faz a diferença. Como afirma o evangelho: "A que assemelharemos o reino de Deus, ou com que parábola o representaremos? É como um grão de mostarda, que, quando semeado na terra, embora seja menor que todas as sementes que há na terra; contudo, depois de semeado, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças e deita grandes ramos, de tal modo que as aves do céu podem pousar à sua sombra." (Marcos 4:30-32).
Lutar pelos e com os mais pobres e oprimidos é estar em sintonia com o Reino de Deus. Sejamos e sigamos como grãos de mostarda. 

*Caroline Cirqueira é militante da OPA e da PJ.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

100 anos depois de hoje*

História e atualidade da Revolução Russa

Por Thales Emmanuel**

Era o ano de 1917. A fome se alastrava na cidade e no campo, mas não para toda gente. Na cidade, as mazelas não atingiam os ricos capitalistas; no campo, a nobreza seguia ostentando o poder sobre as terras e, consequentemente, sobre o trabalho das famílias campesinas, que representavam 80% da população e eram obrigadas, por ordens do czar, a enviar seus filhos para morte no fronte de batalha da Primeira Guerra Mundial.

Czar era o título conferido aos imperadores da Rússia, uma espécie de rei, cujo poder se alicerçava na riqueza de seus amigos latifundiários, industriais e banqueiros, riqueza originada da exploração de milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

Se comparado a outros países da Europa capitalista, a Rússia era um reinado atrasado, ainda feudal. Somente em algumas poucas cidades um operariado se formava, sobretudo pela entrada de capitais estrangeiros.

12 anos antes, em 1905, acontecimentos abalaram as estruturas daquela sociedade decadente. Em janeiro, dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras marcharam pelas ruas de São Petersburgo em direção ao Palácio de Inverno, residência do czar. Usavam símbolos religiosos. Não queriam guerra. Queriam que o imperador olhasse para eles, que ajudasse a sanar a difícil situação na qual estavam mergulhados. Mas o czar, indiferente à crucificação que pesava sobre a maioria da população, recebeu o povo à bala. O episódio, que ficou conhecido como Domingo Sangrento, foi o estopim para uma revolução popular.

Domingo Sangrento

Greves se espalharam rapidamente, soldados se rebelaram contra as ordens que vinham de cima. Nasceram os sovietes, os conselhos de operários, soldados e camponeses, que passaram a organizar, através da democracia direta, parte da produção, da imprensa e de outros setores da vida social. Com os sovietes, a classe trabalhadora descobriu, na prática, que não precisava de patrões.

A crise aperta e Nicolau II, o czar, dá a entender que vai recuar, prometendo reformas democráticas. Uma cilada! Quase nenhuma promessa é cumprida e a repressão ataca com força máxima as organizações da classe trabalhadora. Prisões, mortes e difamações. A maré da luta dos de baixo reflui, como se precisasse ganhar novo fôlego. Alguns conseguem escapar para o exílio. Mais uma importante lição de 1905: é preciso destruir o poder das forças opressoras antes que este destrua o Poder Popular.

Os anos seguem e, em fevereiro de 1917, a luta de classes se acirra mais uma vez. Uma mobilização no Dia Internacional das Mulheres confere novo impulso às forças populares. Ressurgem os sovietes. A memória de 1905 corre viva nas veias do povo! O czar abdica do trono e o poder se divide em dois: de um lado, a duma, uma espécie de congresso nacional, um governo provisório, que reúne membros das classes proprietárias e de organizações de trabalhadores que acreditam na necessidade de uma etapa de desenvolvimento capitalista antes da luta pelo socialismo propriamente dita; de outro, os sovietes, apoiados pelo Partido Bolchevique e pela ala esquerda de algumas daquelas organizações inseridas no governo provisório. Os bolcheviques puxam a palavra de ordem “Todo poder aos sovietes!”, acreditam na capacidade da classe trabalhadora conduzir uma revolução socialista, e acompanham o povo nas ruas com os gritos de “Pão, paz e terra!”

Mulheres em luta na Revolução

Os meses passam e o governo provisório não atende às reivindicações das ruas. Seu descrédito ante as massas populares cresce ainda mais. Em sentido inverso, a confiança nos bolcheviques aumenta, fazendo com que suas ideias se tornem hegemonia nos sovietes. Em meio à extrema precarização da vida, os de cima não conseguiam mais governar como antes e os de baixo não queriam mais retornar à difícil vida que levavam.

Um setor do governo provisório, comandado pelo general czarista Kornilov, ensaia um golpe contra o próprio governo. Entre o ruim e o pior, os bolcheviques mobilizam os trabalhadores para o combate contra Kornilov, sem gerar ilusões quanto as intenções do governo provisório: “Não o apoiamos, e sim desmascaramos sua debilidade.” Kornilov é derrotado e as massas populares aderem ao bolchevismo definitivamente.

O campesinato se levanta. O Partido Bolchevique defende a entrega imediata das terras aos agricultores e trabalha para que o movimento no campo se una à luta dos operários na cidade. O vínculo com e entre a classe trabalhadora se estreita ainda mais.

Lenin, dirigente bolchevique, fala ao povo.

É chegado o momento de organizar a insurreição, é preciso destruir o poder que destrói. O socialismo abre passagem, sem pedir licença, e um 2° congresso nacional dos sovietes é convocado. Na madrugada do dia 25 de outubro, segundo o calendário juliano russo, o governo provisório é derrubado e os sovietes, mais os bolcheviques, tomam o poder. Os países capitalistas beligerantes voltam suas armas contra a Rússia revolucionária e se inicia um período de guerra civil que durará até 1921. A classe trabalhadora internacional se solidariza com a classe trabalhadora russa, enquanto as classes ricas destilam seu ódio apoiando e patrocinando ações terroristas e difamando a Revolução de todas as formas possíveis e imagináveis.

1917 marca o início do ciclo de revoluções socialistas, com forte impacto na trajetória social do mundo ainda hoje. O Muro de Berlim caiu em 1989 – mas caiu do lado errado. Hoje, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não existe mais, mas essa heroica experiência, sem precedentes na história humana, serviu para mostrar que, além de necessária, uma outra forma de organizar a vida é possível de ser construída.

Os soviéticos interviram decisivamente para uma série incontável de conquistas populares. Países da África se libertaram do julgo colonial com seu apoio, o nazifascismo foi derrotado com a resistência e ofensiva de seu povo, as mulheres avançaram de forma nunca antes vista para superação das desigualdades de gênero. Até a banda capitalista do planeta teve que fazer inéditas concessões à classe trabalhadora em seus territórios, com medo desta seguir o repertório vermelho. Para citar alguns exemplos.

Os revolucionários e revolucionárias daquele tempo ousaram vencer, constituindo com isso o mais abominável dos pecados para quem desfruta da vida na parte de cima da pirâmide social. Como toda obra humana, muitos erros e até crimes foram cometidos. Crimes que, na sociedade capitalista, naturaliza-se e se estimula como valor e princípio, diga-se de passagem.

Que os desvios não escapem à uma imprescindível e permanente autocrítica, nem muito menos sirvam de justificativa para abandono do ideal de libertação. Até porque a humanidade, 100 anos depois de hoje, dependerá inteiramente do que fazemos agora com a memória da generosidade soviética de 100 anos atrás.

*Texto originalmente publicado em Informativo Redentorista, Vice-Província de Fortaleza.

**Thales Emmanuel é militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).