segunda-feira, 23 de março de 2020

O que significa o 8 DE MARÇO para a luta das mulheres





Para entendermos melhor a luta das mulheres, devemos partir do começo, de quando fomos transformadas, de deusas, em objeto de propriedade do homem-mercado. As condições de vida das mulheres atualmente devem muito a essa história. Portanto, temos o dever de conhecer nosso passado para entendermos o presente e saber pelo que e como devemos lutar.
De acordo com Bachofen, nas primeiras gerações humanas, a mulher e o homem tinham relações bem diversas da que se atribui como “natural” hoje em dia. Sequer existia o termo “monogamia”. Somente a maternidade era conhecida. Elas eram vistas como uma espécie de deusa, muito respeitadas e apreciadas, já que tinham o “poder” de gerar outra vida. Nesta época, as tarefas eram distribuídas de forma equilibrada: o homem lidava com a caça, a mulher com a agricultura e os filhos eram cuidados por todos, sem submissão de ninguém. As terras e a alimentação também eram de usos comuns.
Após este primeiro período da história humana, outras formas de relações entre tribos ou comunidades se desenvolveram. Homens e mulheres se relacionaram até chegar o ponto dos homens se tornarem os chefes de propriedades e da família, e a mulher ficar geralmente reclusa ao espaço e atividades domésticas. Com a chegada da Revolução Industrial, no final do século 1800, as mulheres foram enviadas às fábricas. O valor pago por sua mão-de-obra era muito mais barato que o dos homens, e muito também eram as horas de trabalho diárias. Eram açoitadas, humilhadas e espancadas.
Alexandra Kollontai dizia que o Dia da Mulher, ou “o Dia da Mulher Trabalhadora”, como ela o chamava, “é um dia de solidariedade internacional, um dia para rever a força e a organização das mulheres proletárias”, das mulheres trabalhadoras. Daquelas que diariamente estão presentes no trabalho doméstico, na feira, no comércio, cuidando dos filhos, nas indústrias, na universidade, nos sindicatos; enfim, mulheres que vivem várias jornadas de trabalho por dia.
Kollontai o denominava assim porque esse dia não nasceu do acaso. Ele veio da revolta de mulheres trabalhadoras contra as condições degradantes de trabalho que lhes eram impostas desde o inicio da industrialização. No século 19, tais condições atingiram um ápice, tanto na Europa como nos Estados Unidos.
Há duas versões sobre o fato histórico que levou à criação do 8 de Março. A primeira conta que foi em decorrência de uma manifestação espontânea de trabalhadoras do setor têxtil de Nova Iorque, contra os baixos salários e a jornada de 12 horas, no dia 8 de março de 1857. Reprimida violentamente pela polícia, na qual muitas trabalhadoras foram presas e mortas. A segunda versão aponta para o 8 de março de 1908, data em que as trabalhadoras da fábrica têxtil ‘Cotton’, de Nova Iorque, declararam greve em protesto pelas condições insuportáveis de trabalho. Na sequência disso, ocuparam a fábrica e o patrão prendeu-as lá dentro, fechou todas as saídas e incendiou o local. Morreram queimadas as 129 trabalhadoras que lá estavam. Além desses dois episódios, o mês de março tem uma importância simbólica muito grande, devido a uma série de outras lutas proletárias.
Desde sempre, os/as socialistas – pessoas que lutam por igualdade social e contra o capitalismo – defenderam o direito igual para as mulheres, inclusive pelo sufrágio feminino, isto é, o direito ao voto nas eleições. Reivindicações que não interessavam à burguesia, classe rica e dominante.
No mundo capitalista, por um bom tempo, o voto era um direito somente de homens da nobreza e de alguns endinheirados. Depois, mesmo tendo sido estendido a todos os homens, as mulheres continuaram impedidas de participar de eleições. Eram exploradas sem piedade nas indústrias capitalistas, mas eram alienadas deste e de outros direitos.
Em vista disso, em 1909, 28 de fevereiro, as mulheres socialistas dos Estados Unidos organizaram grandes manifestações e encontros por todo o país para exigirem direitos políticos para as trabalhadoras.
As discussões das mulheres continuaram em vários países. No ano seguinte, Clara Zetkin, uma líder socialista alemã, apresentou, durante a II Conferência Internacional das Mulheres Trabalhadoras, a questão da organização de um dia internacional da mulher trabalhadora, que deveria ser repetido todos os anos no mesmo dia sob o lema “O voto pelas mulheres unirá nossa força na luta pelo socialismo”. Com isso, no dia 19 de Março de 1911 foi celebrado o Dia Internacional da Mulher.
Naquele período, o Dia Internacional da Mulher era comemorado durante todo o mês de março, em diferentes locais, não tendo uma data fixa, mesmo com as conferências. Por fim, consolidou-se um dia mundial e fixo para que todas as mulheres estivessem em sintonia e juntas nas lutas, este dia foi debatido e decidido para ser 8 de Março.
Temos consciência que a burguesia e o capitalismo tentaram e tentam se apoderar da simbologia do Dia da Mulher. Pretendem que ele deixe de ser da Mulher Trabalhadora para que se transforme em um dia comercial por excelência. Tentam comprar a consciência das mulheres trabalhadoras com flores, rosas... Mas nós sabemos o quanto de espinhos carrega cada rosa com que tentam corromper nossa luta!
Lutamos por direitos, mas não consideramos os direitos, por si só, suficientes. Temos, principalmente, de aprender a fazer uso de cada direito conquistado ou a ser conquistado!
Lutamos por direito ao estudo, mas queremos que o conhecimento adquirido pela nossa luta seja usado para benefício da humanidade em cada país que nos encontremos. Lutamos por trabalho com 8 horas diárias e salário compatível ao dos homens (mesma função, mesmo salário). Recusamos a jornada dupla ou tripla devida ao cuidado do lar; queremos divisão de responsabilidades e tarefas. Queremos o direito ao divórcio sem ter de correr riscos de morte, de feminicídio. Queremos o direito à saúde em todo o seu significado (saúde específica da mulher, da criança, da adolescente, saúde para exercer uma vida sexual sadia, saúde na velhice). Queremos o direto à família, mas que ela seja exatamente o que a palavra significa: comunhão de pessoas que se ligam pelo amor. Recusamos a ser transformadas em carregadoras de família, como geralmente o homem usa.
Precisamos questionar a sociedade constituída, capitalista e machista, sobre o individualismo que acorrenta a mulher às tarefas cotidianas repetitivas e embrutecedoras dentro de cada lar, principalmente nas casas de trabalhadores e trabalhadoras, pois nos lares da burguesia essas tarefas são realizadas pela “empregada doméstica”.
Que tal coletivizarmos atividades comuns em cada rua? Nos referimos a restaurantes coletivos, lavanderias coletivas, creches coletivas, organizando o trabalho em ações de rodízio. Assim, promovemos a socialização da vizinhança, aumentando a segurança e diminuindo custos. Nossa luta se modifica conforme a sociedade muda.
Queremos e lutamos para sermos reconhecidas como sujeito no trabalho, na rua, na Igreja, nas universidades, nas escolas, nas festas!
Queremos e lutamos para não sermos alvos de chantagem social nem de alienação psicológica!
Queremos e lutamos para sermos mulheres conscientes da necessidade de acabar com a exploração!
Queremos e lutamos para sermos TRANSFORMAÇÃO!
VIVA O DIA 8 DE MARÇO!
VIVA A LUTA DAS MULHERES TRABALHADORAS!
AVANTE!

Por Amélia Nunes e Caroline Cirqueira, militantes da Organização Popular (OPA) e do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro.


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Encontro reúne atingidos e atingidas por construção de barragem em Crateús



A comunidade Poti, no município de Crateús-CE, acolheu, nos dias 19 e 20 passados, aproximadamente duzentas pessoas das comunidades atingidas pela construção da barragem Lago de Fronteiras (entre o Ceará e o Piauí). O projeto, que tem impactado milhares de famílias, visa, principalmente, de acordo com estudos preliminares, garantir o fornecimento de água para o funcionamento de uma grande mineradora, em instalação em municípios vizinhos. Não é para matar a sede da população nem para a produção agrícola local.

O encontro, iniciativa do Grupo de Estudos e Práticas Interdisciplinares em Agroecologia (GEPIA), da Universidade Federal do Ceará (UFC), com as comunidades atingidas, se iniciou com um café da manhã. Depois, uma mística provocou reflexões e sentimentos ao retratar a realidade comum a quem sofre e luta contra projetos que não vêm para servir à população, mas a interesses de grandes empresas.

Na sequência, os/as participantes conversaram em grupos suas angústias, as promessas não cumpridas pelo Estado, as inúmeras violações de direitos e apontaram suas reivindicações, além de alternativas de enfrentamento. As ideias foram anotadas e, depois, socializadas na plenária maior.



A angústia das famílias atingidas pôde ser sentida desde antes, já nas conversas de preparação para o encontro. “Pra mim, é uma tragédia (...). Nós somos lixo aqui. Nós somos lixo. Os outros não querem ser. Mas eu digo porque nós somos. Porque vão nos jogar onde eles querem. Lixo que você apanha aqui e bota pra lá, depois manda pra acolá”, declarou a senhora J., de 74 anos de idade.

O próximo momento do encontro contou com a participação de pessoas atingidas pela construção da barragem do Castanhão, no Vale do Jaguaribe, do outro lado do estado. Segundo Ézio, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), é “sempre a mesma coisa. Eles vão tentar enganar as comunidades até a chegada das águas, quando, para não morrerem afogadas, as famílias são obrigadas a sair. Por eles, os atingidos não teriam nenhum direito. É de nossa luta, da resistência do povo, que vêm as conquistas.”

Na parte da tarde, especialistas nas áreas do direito, psicologia e território expuseram percepções sentidas e analisadas a partir das realidades estudadas com as comunidades. Para Juliane Melo, advogada do Escritório Frei Tito de Alencar, “há, comprovadamente, uma série de ilegalidades e violações de direitos no processo de implementação do Lago de Fronteiras. O povo tem o direito de lutar contra isso.”

O instante seguinte seria uma audiência de negociação com os órgãos do Estado, direta ou indiretamente envolvidos na construção da barragem, principalmente o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS), que não compareceu nem informou o porquê. “Nós sabemos onde fica o escritório deles. Se o DNOCS não vem até aqui, nós iremos até ele, e com muito mais gente”, declarou um dos participantes, com indignação estampada no rosto.

No segundo dia, formou-se uma coordenação das comunidades, com o compromisso coletivo de traçar planos de fortalecer a resistência, a união e o espírito de coragem que permeou todo o encontro.



Muitas entidades e movimentos apoiadores estiveram presentes; entre elas, a Igreja Católica, o Movimento Sem Terra e a Organização Popular (OPA).
“O encontro dos atingidos foi planejado para buscar unir as comunidades, para que a discussão sobre os direitos violados saísse do pensamento individual para uma reflexão coletiva”, frizou Thaís Félix, estudante de psicologia e integrante do GEPIA.

* Por Thales Emmanuel

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Para aonde caminhamos?



Vivemos tempos difíceis, no Brasil e no mundo. De cem anos para cá, se pegarmos os dados disponíveis, perceberemos que a morte avança perigosamente sobre a vida. A desigualdade social é maior: ricos mais ricos e mais pobres cada vez mais pobres. As mortes por armas de fogo aumentam assustadoramente contra a população marginalizada, em nosso país principalmente a negra. A indústria da guerra amplia seu mercado consumidor e seu poder de destruição, tendo presidente de república como garoto propaganda. A bomba lançada em Hiroshima, atualizada em tecnologia, destruiria hoje a vida humana na terra num apertar de botão. O verde da biodiversidade sofre grave desertificação com o avanço do verde dos monocultivos tóxicos do agronegócio. A mineração a serviço do lucro sepulta trabalhadores com dilúvios de lama de rejeitos. A seca deixa de ser uma questão climática e só atinge quem não tem dinheiro para pagar pela água. Água, dom de Deus apropriado por grandes empresas. Para aonde vamos? Para aonde caminha a humanidade?

Não é preciso ser profeta para entender que o futuro nos espera incandescente como a Amazônia incendiada ou o mais terrível dos infernos nunca antes imaginado. “Nunca” é modo de dizer, pois este inferno para muitos já existe há tempos. O mais preocupante de tudo é que não são videntes que afirmam o tenebroso possível destino da humanidade, mas a história. É a história, são os fatos que mostram que marchamos em direção às ardentes labaredas.

Se, por um lado, as previsões advindas de fatos desesperam mais do que qualquer poder de adivinhação, por outro, anima saber que as mudanças de rumo estão ao alcance de nossas ações. A história é uma construção humana! Por isso, não nos enganemos, o primeiro alvo que os donos do capital e seus servidores buscam destruir é nosso ânimo, nossa alma, nossa capacidade de acreditar que é possível caminhar sobre águas tempestuosas e chegar a um chão seguro. “Não desistir é a única maneira de vencer”, como ensina o militante no filme Uma História de Amor e Fúria.

Para tanto, precisamos aprender com a própria história, onde abundam exemplos de coragem e de vitória das classes oprimidas. Aprender de verdade é, em muitos casos, aceitar a dor como método pedagógico. Há muitas coisas que não queremos enxergar, mas que saltam aos olhos. Muitas vezes, escutamos o que queremos e nos fazemos de surdos ao que precisamos ouvir. No livro Êxodo, da Bíblia, por exemplo, Deus escuta o clamor de seu povo contra os opressores, conhece seus sofrimentos (Ex 3, 7), serve de inspiração, caminha junto, mas é o povo quem tem que se levantar e lutar pela sua libertação.

Muitas de nossas angústias aparecem justamente por não aceitarmos esta verdade. Por medo, por falsa compreensão ou por não sentirmos na pele o que sofre aquele que se encontra na parte mais baixa da pirâmide social, acabamos terceirizando uma missão que somente nós podemos realizar. “Liberdade não se pede, se conquista!”, como diz dona Daisy Fernandes. E olha que Deus fala isso para Moisés sem arrodeios: “...eu sei que o rei do Egito não os deixará ir, se não for obrigado por mão forte” (Ex 3, 19).

Neste sentido, o espanto constatado em alguns de nós espanta tanto ou até mais que os absurdos das ordens que hoje saem de Brasília. As medidas políticas do atual governo federal atentam contra nossa alma e o estrago é tanto maior quanto maior é a ingenuidade de nossas consciências. Nas missas e celebrações, pedimos a Deus que sensibilize governantes, que amoleça corações faraônicos. Entretanto, praticamente não se escuta prece em relação ao fortalecimento da organização e da luta do povo. Pedimos até para que se substitua por bons os maus administradores do sistema que escraviza, como se a escravidão por si só não fosse heresia que atenta contra a obra do Pai.

No filme Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, a conversa é bem diferente. O povo sabe o que quer e também o que não quer, aprende com sua própria história e se constrói protagonista de sua libertação. As dores das perdas são convertidas em organização e fé no enfrentamento aos opressores. E não achemos nós que se trata de ficção. Bacurau é tão real quanto a revolução protagonizada pelo povo hebreu no Egito e as batalhas há séculos enfrentadas pelos povos indígenas do Brasil.

Nos setores populares da Igreja, chegamos até a diagnosticar o mal como mal – “O capitalismo não presta” –, mas quase nada falamos a respeito do que colocaremos em seu lugar, que modelo de sociedade almejamos construir. Afinal de contas, almejamos ou não a superação da ordem social do capital? Se sim, então qual o nome político do Reino de Deus? A companheira Jocélia Ribeiro, das Comunidades Eclesiais de Base, questiona o silêncio cristão ante a urgência da temática: “Por que não conversamos sobre socialismo, sobre comunismo? Sabemos o que estas palavras significam?” Óbvio que a nova sociedade não precisa ser chamada dessa forma. Não importa o nome, basta que construamos uma estrutura social que nos permita viver como irmãos e irmãs. Mas não nos iludamos: ter um objetivo é fundamental. Se não sabemos para aonde ir, chegaremos a lugar nenhum. No Êxodo, não é somente a luta contra a escravidão que interessa. O objetivo está traçado desde o princípio da luta: marchar em direção à “terra onde corre leite e mel, o território dos cananeus, heteus, amorreus, ferezeus, heveus e jebuzeus” (Ex 3, 8).

Acontece que entre a escravidão e a terra prometida há, invariavelmente, um extenso deserto. Assim como a liberdade, a construção da igualdade passa por mãos humanas. Humanos com seus medos, dúvidas, egoísmos e contradições. Humanos desumanizados por regimes opressores. Mas também humanos em solidariedade, coragem, criatividade e esperança. Humanos como nós. Não dá para anunciar o Reino sem passar pelo deserto. Não é com esmola de tempo e de recursos que construiremos um mundo de justiça e paz. O sacrifício de partilhar o que nos é essencial é o nosso deserto e, ao mesmo tempo, anúncio de vida plena para todos e todas. Neste sentido, o que temos feito?

“... eu lhes dou a MINHA paz” (Jo 14, 27). A paz de Jesus não era a mesma paz proclamada pelo Império Romano. A paz de César tinha como significado a relativa estabilidade que passava o sistema opressor na época em que Jesus fora crucificado. A paz de Jesus é o oposto da paz de César. Por isso os primeiros cristãos eram conhecidos como “perturbadores da ordem”. A paz de Jesus é uma paz inquietante, que estranha nas tripas as dores e sofrimentos dos oprimidos, e celebra junto suas alegrias e conquistas. Paz como sinônimo de indignação e enfrentamento às injustiças. O comodismo da indiferença, para Jesus, não era sinal de paz, mas de crueldade. Como vivenciamos e como queremos vivenciar a paz de Cristo em nosso dia a dia?

O momento que atravessamos é difícil. Porém, se Deus nos colocou aqui, justo agora, não foi à toa. Há sempre um admirável propósito ávido por se realizar nas entrelinhas daquilo que muitos enxergam como trágica coincidência. E o nosso propósito, como seguidores e seguidoras do Nazareno, é semear vida, luta e libertação. Não nos rendamos à escravidão! Ponhamos, com ou sem medo, os dois pés para fora do barco nessas águas turbulentas e façamos do deserto sinal de anunciação. Só assim, eles, os poderosos e sua sociedade opressora, não passarão! 

* Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular (OPA).

** Publicado em Informativo Redentorista.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A Luta Das Mulheres Por Uma Sociedade Igualitária



A luta das mulheres por vida digna existe há séculos e, por que não dizer, milênios. Apesar de importantes conquistas, ainda não se chegou ao ponto de falar aos quatro cantos: “Agora, sim, mulherada, temos voz e vez!” Este objetivo é o que buscam muitas mães de famílias, mulheres da classe trabalhadora, militantes.

Maria de Nazaré, uma das pioneiras nessa luta que se tem notícia, grávida ainda muito jovem e pobre, ela moveu com sua coragem uma sociedade inteira. Foi contra a opressão e, por isso, caluniada e perseguida pelos poderosos. Mas não desistiu de lutar por ideais de igualdade e justiça, os mesmos que ensinou a seu filho. 

As mulheres, especialmente da classe trabalhadora, têm o rosto de Maria de Nazaré em sua essência. Anseiam por justiça, dia após dia. Muitas cantarolam e rezam para que sua realidade social mude, sem mesmo saberem a força que têm. Trabalham dia e noite para sustentar sua família, vítimas de um sistema que as marginaliza. Milhares são violentadas diariamente nas ruas, no trabalho e no lar. Isso tem que parar! 

Não cabe assistirmos a tudo como plateia, sentadas/os ou em pé, observando ou aplaudindo. Temos que estar dentro do espetáculo que transforma a sociedade. 

No ano de 1932, as brasileiras conquistamos o direito ao voto. Uma conquista ainda segregada e maquiada pelos poderes instituídos. Mulheres casadas só podiam votar se os maridos permitissem, e as solteiras e viúvas só teriam este direito se possuíssem renda própria. Contradição de uma sociedade marcadamente machista e patriarcal!

Muitas e difíceis lutas foram necessárias para chegarmos até aí, e muitas outras surgiram e surgirão pela frente. O caminho para a igualdade plena ainda é longo. As lutas feministas elegeram a primeira deputada no Brasil, Carlota Pereira Queiroz, no ano de 1934. E somente em 1946 a obrigatoriedade do voto foi estendida às mulheres, tal como era para os homens.

Para que as mulheres estejam presentes e desempenhando seu papel como indivíduos de direitos é preciso dialogar sobre política, é preciso fazer política! Uma política que discuta sua história, seu papel na sociedade, seus anseios e medos diante dos preconceitos e discriminações. Discutir sobre raça, sexualidade, família, moradia, trabalho, educação, saúde, reformas tributárias, agrária e trabalhista, discutir sobre o feminicídio, sexismo e sobre as relações de oprimidos e opressores existentes no capitalismo. É preciso ter coragem como Maria, como Patrícia, Margarida... e não temer a luta pela dignidade que deve constar a todo ser humano. 

Angela Davis, ativista norte americana, exemplo desde a década de 60 e inspiração para muitos movimentos de mulheres, pontua em seu livro “Mulheres, Cultura e Política” a importância da perseverança nas lutas: “Lembrem-se que vocês não devem apenas imaginar e sonhar com seus objetivos futuros – bem como com o futuro do mundo –, mas devem se levantar, unir-se e lutar pela paz, por empregos, pela igualdade e pela liberdade!” 

Portanto, mulheres, nossa luta é a partir de nossa casa, mas também é em saída. Quebremos as correntes que nos aprisionam! As correntes da discriminação, da pobreza e da violência opressora, alimentadas por esse poder obscuro que lucra a partir do sofrimento do povo. E vamos juntas e juntos rumo à uma sociedade igualitária. Que os opressores tremam com mulheres que sonham e que lutam! 



Por Caroline Cirqueira, militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e da Organização Popular (OPA).

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Eleições*


Nesta e na próxima edição trataremos do tema “Eleições”, não da forma como comumente nos é apresentado, das candidaturas para o eleitorado. Acreditamos que esse jeito de discutir política não politiza. Isso porque as eleições se encontram dentro de um contexto mais amplo, de luta de classes, opressores e oprimidos, numa sociedade cuja lógica de funcionamento gera cada vez mais desigualdades e onde quem tem, elege, e quem não tem, quando é permitido, só vota.

Agora problematizaremos a questão de uma maneira geral, que servirá de base para entrarmos mais detidamente nas eleições 2018, tema da próxima edição. De antemão, para quem quer se inteirar mais, recomendamos a leitura de “Um raio-X na democracia”, reflexão publicada no número VIII do Informativo Redentorista e atualmente disponível no blog “Cebs Comunica”.


Já se perguntou qual a quantidade de pessoas que invalidam o voto à cada eleição? Os registros oficiais contabilizam uma crescente desde 1989, quando reconquistamos o direito de votar diretamente para presidente da república. Nas eleições de 2016, nulos, brancos e abstenções chegaram a superar a votação do primeiro ou do segundo colocado em 21 das 26 capitais estaduais em todo o país. Se contarmos o chamado voto de protesto, o por cabresto, o votar por votar, o atendimento ao pedido do amigo, o voto na celebridade, o voto de quem “não quer perder” o voto, o do candidato com mais tempo de televisão, nos cartazes e nos carros de som, o voto comprado, o no bonitão ou na bonitona, o do santinho da boca de urna e por aí vai, não seria de espantar se nos deparássemos com uma invalidação beirando os 70 ou 80%.

O que esses números nos dizem? E, melhor, o que faremos com o recado dado? Já que “invalidação” não é bem a palavra correta, uma vez que alguma mensagem é transmitida quando dona Raimunda aperta o botãozinho da urna eletrônica e diz: “Pronto! Perdi meu valor."

Há entidades que trabalham em prol do voto "consciente". Pelo visto não tem surtido muito efeito. Prova de que boa vontade somente não é suficiente. Outros defendem o voto facultativo. Como se essa medida facultasse também à dona Raimunda perder ou manter seu valor. Quem vê aí uma saída para a crise de representatividade talvez esteja esquecendo que os mais ricos, que criam a miséria, bancarão ônibus e merenda pros mais pobres irem votar em seus candidatos. E há quem inverta os papéis entre algoz e vítima: "Cada povo tem o governo que merece."

O que há de comum nos três casos? Cada qual, à sua própria maneira, desconsidera o peso da estrutura social na manipulação de escolhas, na determinação da forma de regime político adotada, no respeito ou não ao resultado das urnas e até mesmo se deve haver eleições ou se é algo que deva ficar só para daqui a 26 anos. Diz-se que política é a arte do possível. E é preciso admitir: diz-se quase nada com isso, já que a questão central é saber quem determina o que é possível.

Pilatos consultou o povo: "Jesus ou Barrabás?" Mas não incluiu seu nome nem o de César, imperador romano e seu patrão, na lista de eventuais crucificados. Quantos judeus não votariam nulo naquela páscoa por não admitirem, em sua consciência, a desfaçatez daquele tribunal? Quantos não se questionaram: "Por que o rico nunca vai à cruz?" "Por que é só gente da gente que tem que morrer?" Quantos não desconfiaram da manipulação ideológica provinda dos grandes sacerdotes, frequentadores assíduos dos luxuosos banquetes promovidos pelos grandes proprietários? O sangue do camponês sem terra da Galileia atraiu mais curiosos do que indignados. Por que?

“Democratas” que matam a democracia

Em 2018, dona Raimunda comemorou 78 verões de existência. Tinha 24 quando os tanques tomaram as ruas e derrubaram o governo João Goulart, constitucionalmente empossado. Um presidente que ela simpatizava porque se preparava para implementar medidas nunca antes implementadas. Eram as Reformas de Base: Reforma Agrária - terra para quem não tem terra; Reforma Urbana - porque a cidade não deveria ser lugar só para quem tem muita grana, moradia para as famílias sem teto; Reforma Tributária - para equilibrar a balança, já que na época eram os mais pobres que pagavam mais impostos que os mais ricos, assim como é hoje em dia.

Havia muita gente empolgada com a democracia. A classe trabalhadora ia pra rua praticamente todo dia para defender as Reformas de Base. O clima era de que "agora a coisa vai". Mas aí o que veio foi o golpe. No primeiro momento, a jovem Raimunda ficou confusa: "Como assim? Não estava tudo conforme a lei?". Baculejada por um grupo de soldados quando se dirigia ao trabalho, parou numa banca de jornal e viu, estampada na primeira página de O Globo: "Ressurge a democracia!" Nas ruas tinha também gente bem vestida e elegante gritando "Viva os militares, que nos salvaram do demônio comunista!". Gente que se acreditava cristã, como dona Raimunda, que passou a desconfiar de que, "assim como existem 'democratas' que matam a democracia, existem 'cristãos' que crucificam Cristo".

A jovem Raimunda ouviu os militares prometerem eleições diretas para logo em breve. Escaldada com os acontecimentos, não se surpreendeu quando este "logo em breve" durou 26 anos. Acompanhou a tortura dos que lutavam contra o regime atroz. Viu a seleção de futebol campeã do mundo ser usada como anestésico para os problemas sociais e pensou: "A mentira há de ter um fim". Viu padres e freiras sendo tratados como "subversivos" porque, sendo fiéis ao Evangelho, optaram por estar ao lado dos oprimidos. E se encheu de empolgação quando escutou um bispo declarar em sua simplicidade corajosa que "subversiva é a realidade que denunciamos". Conheceu as CEBs e, nas Comunidades Eclesiais de Base, se reencontrou com o Jesus militante do Reino da igualdade e da justiça. Foi lá que descobriu que quando a Igreja está ao lado dos ricos dando sopão aos pobres, é santa; mas quando pergunta por que o pobre é pobre, é comunismo. Nas CEBs, conheceu também um pouco da história da América Latina, foi quando a máscara caiu por completo: "Nunca haverá democracia na política enquanto não houver democracia na economia. Os ricos só toleram os pobres enquanto mão-de-obra, jamais como seres de direitos. Não existe política da classe trabalhadora sem que se ataque a base da riqueza da classe que está no poder."

O fascínio luminoso em um tempo em que tudo parecia novo

Aquela ditadura teve fim na década de 1980 por conta da pressão das ruas, luta que dona Raimunda participou ativamente, mas no final das contas decidida por um acordão entre os de cima, que acabou por determinar o ritmo e o conteúdo prático das mudanças. As liberdades democráticas conquistadas, algo que dona Raimunda muito valoriza, mas que não cegam sua vista, não fizeram diminuir o peso das prisões, torturas e assassinatos dos mais pobres e dos que seguiram lutando por justiça. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) registra que de 1985 para cá foram aproximadamente duas mil mortes no campo e quase nenhum mandante julgado ou cumprindo pena. “Vó, por que morre tanta gente nessa tal democracia?” "Pilatos, Margarida. Ele continua com o poder exclusivo de julgar, e seus amigos fazendeiros com o poder econômico que a concentração da terra dá", respondeu à sua netinha de apenas 9 anos.


No intervalo entre o que estava deixando de ser e o que seria, dona Raimunda viu se espalhar em todos os lares a televisão, logo considerada o membro mais importante da família. Nas eleições presidenciais de 1989 sentiu pela primeira vez o poder totalitário da onipresente caixinha luminosa. A manipulação da edição do último debate entre os presidenciáveis Luiz Inácio da Silva e Fernando Collor de Melo deu a vitória ao candidato dos marajás. "É impossível a uma democracia conviver com uma ditadura como essa da Rede Globo. A gente vota, mas é ela quem escolhe", pensou.

Pela mesma Rede Globo assistiu à queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Mais uma grande preocupação: parte importante da militância escorregou na casca de banana burguesa e abandonou os ideais de um novo mundo. "Agora ficou fácil para os opressores. Nosso time carece de ataque." Engolidas pela lógica eleitoreira, organizações abandonam o trabalho de base e a luta deixa de ter uma finalidade educativa para se transformar em poder de barganha, uma espécie de assistencialismo combativo. Dona Raimunda chorou de indignação ao ver que o partido que ajudara a construir abrira mão de seu programa para se aliar a opressores. "Não há acordo possível entre nós de cá e eles de lá", e seguiu com seu trabalho de formiguinha junto às comunidades.

“Passarinho preso na gaiola não canta, protesta!”

Em junho de 2013, aos 73 anos de idade, tão logo soube que tinha gente na rua lutando contra o aumento das passagens de ônibus, botou o pé na estrada e se juntou a milhões de jovens que também protestavam contra os bancos, a ditadura da mídia, a farsa da democracia representativa dos ricos e por maiores investimentos no setor público. Por pouco não perdeu a vida biológica quando uma bomba de gás lacrimogêneo explodiu a um passo de onde gritava palavras de ordem. Depois de dias internada, acordou e entendeu que sua missão na terra ainda não terminara.

"Dona Raimunda, tão dizendo que vão derrubar a Dilma com o tal de ‘impitchimam’. A senhora concorda?" "Não, não concordo. Isso aí é golpe! E golpe ou é para impedir melhora ou é para piorar a situação. Se fosse o povo, a classe trabalhadora lutando para acabar com as desigualdades, contra a exploração, eu concordaria." "Concordaria com o golpe?" "Aí já não seria golpe, Carlos. Seria revolução."

Aos 78 anos de idade, por lei, o voto para ela não é mais obrigatório. "Nestas eleições, não entregaremos 'santinhos' em nome de ninguém, muito menos nos calaremos. Nossa comunidade de base decidiu fazer uma campanha diferente. Vamos estudar a forma oficial de fazer política com o povo para entendermos seus limites, seu amarramento às grandes empresas. E votaremos nos candidatos de esquerda, que estão na luta com a gente. Discutiremos projeto de sociedade e não projeto eleitoreiro. Esse é o nosso jeito de fazer política, de ser Igreja. O coração, de onde vem o bombeamento do sangue vermelho que nos anima a vida, deve estar na organização e nas lutas populares. Essa é nossa verdadeira segurança contra os que querem andar para trás e garantia de um futuro de vida plena para todas e todos."

Como um passarinho preso na gaiola, dona Raimunda, ao declarar que perde o valor no instante em que vota, não canta, protesta! Protesta contra um sistema que aprisiona o povo, impedindo-o de exercer o direito sagrado de decidir o seu destino. Protesta e faz questão de lembrar, com a motivação de sempre, o que disse certa vez o papa Francisco: "Todos os muros ruem. Todos!"

Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
*Originalmente publicado em Informativo Redentorista.


Teologia da Libertação: “Deus e os Pobres continuam”*


                                                                                                                     Por padre Júlio Ferreira**

Certa vez, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da prelazia de São Felix do Araguaia, indagado sobre o fim da Teologia da Libertação, respondeu: "Deus e os pobres continuam." Aqui está, nas palavras de Dom Pedro, a raiz dessa teologia latino-americana, que tem a capacidade e a ousadia de refletir Deus a partir do processo histórico. Uma Teologia que está estritamente ligada à irrupção dos pobres na Igreja e na sociedade.

A Teologia da Libertação tem suas origens no Concílio Vaticano II (1962 à 65). Foi esse concílio que deu o ponta pé inicial para que a Igreja se revisitasse e analisasse sua relação com o mundo. Essa era a intenção do papa João XXIII, quando convocou o concílio. É a Igreja se abrindo e se reconhecendo como povo de Deus, servidora e solidária, capaz de escutar os clamores, as angústias, as tristezas, as alegrias e as esperanças da humanidade de hoje. 

Na América Latina, a recepção do Concílio Vaticano II se deu de forma criativa. Em Medellin, na Colômbia (1968), o episcopado latino-americano teve a preocupação de adaptar as intuições do concílio à realidade, marcada pelos clamores e exclusão  dos pobres e marginalizados. A conferência refletiu a urgência de uma nova consciência de Igreja e novos modos de viver a fé. Além das provocações do concílio, tão bem aceitas pela Igreja da América Latina, também contribuíram para as decisões: o binômio opressão - libertação; a presença dos cristãos nas revoluções, particularmente com o advento da revolução cubana; as resistências nos movimentos sociais libertadores e a emergência de uma nova concepção teológica. 

A grande pergunta da Teologia da Libertação é: como encontrar Deus em meio à dor e a opressão em que vivem os pobres da América Latina? Essa teologia nasce justamente do confronto entre a urgência de anunciar a Vida do Ressuscitado e a situação de morte em que se encontram os pobres latino-americanos. O que ela busca é que se compreenda que, sem compromisso permanente com os pobres e sua libertação, estamos longe da mensagem cristã.

A Teologia da Libertação coloca o problema da missão da Igreja e das suas opções dentro de uma realidade conflitante, marcada por grandes desigualdades sociais, onde alguns poucos enriquecem às custas das misérias de muitos. 

É o teólogo peruano, Gustavo Gutierrez, um dos pioneiros em articular a salvação com o processo histórico de libertação integral do ser humano. Gutierrez é reconhecido como o primeiro a sistematizar a Teologia da Libertação. Ele consegue articular Deus, o contexto histórico, o mundo dos pobres e seus problemas centrais, as ciências sociais, a profecia e a mística. Para Gutierrez, os pobres têm uma força histórica libertadora. 

A Igreja da América Latina conseguiu enxergar as mazelas produzidas por uma sociedade que divide as pessoas em classes, por causa de uma estrutura que pretende sempre mais manter privilégios para uma minoria. Começou a entender que era preciso identificar e analisar as causas estruturais que provocam as injustiças e opressões em que vivem os pobres da América Latina. E que, à luz do Evangelho, teriam que ser denunciadas.

Nessa nova ótica, passou-se a olhar o pobre não apenas no aspecto daquele que precisa de um prato de comida ou de uma esmola, mas como sujeito de transformação de estruturas injustas e pecaminosas. A pobreza não é mais concebida como vontade de Deus, mas como consequência da concentração de riquezas e, antes, de suas causas estruturais. E por causa dessa nova concepção, começaram as perseguições aqueles e àquelas que se colocam contra o sistema opressor.

“Quando dava comida aos pobres, me chamavam de santo; mas quando comecei a questionar as causas da pobreza, começaram a chamar-me de comunista”, disse Dom Helder Câmara. Dom Oscar Romero, assassinado por um soldado a mando do governo militar de El Salvador, por enfrentar as atrocidades do governo norte americano naquele país. Margarida Alves, lavradora da Paraíba, entendeu que era “melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Homens e mulheres capazes de dar a vida por causa do Reino.

A espiritualidade do martírio faz parte da caminhada dos que passam a acreditar que não dá para ficar olhando para o céu enquanto Jesus continua sendo crucificado nos pobres desse mundo, nos operários, nos indígenas, nos quilombolas, nos sem teto, nos sem terra, nos LGBTs, nas mulheres, no extermínio da juventude. O mártir é alguém  capaz de identificar-se com Jesus crucificado e de sentir profunda compaixão.

Beber dessa espiritualidade libertadora é o grande desafio para os cristãos e cristãs de todos os tempos. Pena que alguns ainda preferem se contentar com uma fé ingênua e acabam compactuando com um sistema de morte, que, segundo o  papa Francisco, não se sustenta mais. Os que abraçam o seguimento radical à pessoa de Jesus de Nazaré são militantes nos partidos políticos que não se rendem à fúria do capital; nos sindicatos, nos movimentos sociais; nas organizações populares e nas pastorais sociais. 

As Comunidades Eclesiais de Base são o modelo de Igreja que dá suporte à Teologia da Libertação e ao mesmo tempo é essa Teologia que fortalece esse modelo de Igreja. As CEBs são consideradas  como  "um verdadeiro  tecido social da Igreja dos pobres". A Igreja que faz uma opção preferencial pelos pobres é uma Igreja que aprendeu a olhar com "um olho na Bíblia e outro olho na realidade." É uma Igreja que celebra a fé e a vida, consciente de que o Reino de Deus se dá na concretude da História. 

*Publicado originalmente em Informativo Redentorista.
**Padre Júlio Ferreira é missionário redentorista.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

“Ser campeão é um detalhe”*


Ditador Médici e o uso político da 
Seleção campeã de 1970


Por Thales Emmanuel**

Segundo estimativas, 3,4 bilhões de pessoas devem assistir aos jogos da Copa do Mundo de Futebol Masculino na Rússia. Um recorde impressionante, apesar de nem todos sermos animais bolísticos e, diga-se de passagem, nem toda bola rolar em campos de futebol. Afastada das discussões sobre planos táticos e da especulação sobre que seleção levará a taça, há uma dimensão do futebol tão pouco comentada, que, para alguns, sequer pode ser considerada futebol. Trata-se do uso político e econômico deste que é o esporte mais popular do planeta. A chamada "paixão nacional" para brasileiros e brasileiras não cabe nas quatro linhas em que o debate esportivo geralmente é confinado.
Reza a lenda que ele, mais ou menos como conhecemos hoje, chegou em terras tupiniquins, via cidade de São Paulo, trazido da Inglaterra em finais de mil e oitocentos. Em suas primeiras décadas de Brasil, era praticado como esporte de elite por homens brancos ricos, como é o golfe atualmente. Isso acontecia ao mesmo tempo em que, nos terrenos baldios, as peladas organizadas pela juventude empobrecida, predominantemente negra, era reprimida pela polícia como ato de vagabundagem. A inclusão de atletas de raça e origem das classes oprimidas nas ligas oficiais se deu na marra, contra a discriminação explícita. Futebol era sinônimo de distinção social. A profissionalização veio somente na década de 1930, quando, enfim, a ginga e a resistência sobrevivente do morro misturaram-se definitivamente ao esporte, tornando-o arte.
Não tendo como não imitar a vida, o futebol, numa sociedade marcada pelo racismo, machismo e pela exploração e marginalização dos que operam sua edificação, seguiu controlado por homens brancos e ricos. O novo momento adequou-se às velhas estruturas de dominação. Não tardou a se perceber que a "alegria do povo" poderia também alegrar grandes negócios. Para Maurício Drumond, "a popularidade de esportes como o futebol se apresentava como um novo meio de levar a ideologia oficial às massas."
E foi assim, aproveitando-se da máxima de que "futebol não se discute" e da abertura crédula própria aos apaixonados, sua legião de torcedores, que o jogo dos onze contra onze foi dopado com interesses políticos e econômicos para atender a fins que não se revelam no placar eletrônico ao final da partida.
Há inúmeros casos conhecidos desse uso. O mais famoso talvez seja o da demissão do técnico João Saldanha, às vésperas da Copa de 70, período mais sangrento da ditadura militar-empresarial iniciada com o golpe de 1964. Após comandar a maior sequência de vitórias da história do escrete canarinho, João Sem Medo, como o treinador era conhecido, respondeu sem rodeios a uma tentativa de interferência do então presidente-ditador Emílio Garrastazu Médici sobre a lista de jogadores a serem convocados: "O senhor organiza o seu ministério, e eu organizo o meu time." Saldanha, que aproveitava viagens internacionais para denunciar a repressão do regime, foi demitido logo em seguida e a campanha da Seleção no mundial, exaustivamente utilizada para cobrir de patriotismo e unidade nacional uma política subserviente ao capital internacional e massacradora de sua gente.
Os esquemas de corrupção descobertos na FIFA e na CBF, parcialmente revelados ("parcialmente" porque o futebol deixaria de ser "uma caixinha de surpresas" e perderia o encanto vindo do inusitado, fator este transformado em principal atrativo comercial, se toda sujeira fosse dita), e o uso da simbologia da Seleção em manifestações manipuladas por setores golpistas neoliberais são trapaças que ganharam destaque mais recentemente. Contudo, o maior peso da utilização político-econômica do esporte é sutil e cotidiano. Através principalmente da televisão se fabricam ídolos, que influenciam comportamentos e padrões de consumo. Sem nos darmos conta, já estamos torcendo pela multinacional patrocinadora e divulgando sua marca como fiéis militantes. A indústria do entretenimento não produz torcedores, mas consumidores alheios aos problemas sociais. Por ela, opostos se tornam irmãos inseparáveis, como álcool e esporte; e irmãos de uma mesma condição social viram "inimigos", como torcidas organizadas de jovens pobres em guerra contra jovens pobres de outras torcidas; ambos, mortos e feridos, sem notarem que são igualmente barrados no baile da elitização dos estádios, retrato de uma sociedade sem ingresso para os sem poder de consumo.
Assistindo ou praticando, o futebol pode nos proporcionar momentos de alegria em meio a uma vida sofrida. Como resistir ao encanto da dádiva poética torta e incontível de um Garrincha sem, ao mesmo tempo, ofender a Deus? Se a lógica do mercado nos idiotiza, a arte nos humaniza. Alegria e alienação não se misturam por obra da natureza, mas por força de interesses financeiros. Em Fortaleza-CE, uma das mais lindas lutas populares da última década aconteceu em plena Copa das Confederações, 2013, quando torcidas organizadas de Ceará, Fortaleza e Ferroviário se uniram a movimentos populares na avenida Dedé Brasil. Semanas atrás, por pressão internacional e de sua própria torcida, a Associação Argentina de Futebol teve que cancelar amistoso que realizaria com a seleção israelense, após as forças armadas desse país protagonizarem mais um sangrento massacre contra o povo palestino.
Futebol não muda o mundo. Mas ambos, futebol e mundo, mudam quando deixamos de ser passivos expectadores nessa bola gigante chamada Terra, que, aliás, ainda não deu seu último giro. Que o diga a Democracia Corintiana, para quem “ser campeão é um detalhe”.


*Originalmente publicado em Informativo Redentorista, Vice-Província de Fortaleza.
** Thales Emmanuel é militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).