segunda-feira, 19 de setembro de 2016

OUVERDOSE DE HERÓIS E FABRICAÇÃO DE SUPERESPECTADORES



Por Josenilson Doddy*

Heróis, figuras de um poder extremamente ideológico, capazes de manipular a construção da consciência crítica das pessoas. Por trás de cada figura heróica e suas narrativas históricas existe um jogo de interesses que convida a segui-la.

Qual criança ou adulto não deseja ser herói, dotada de superpoderes e personalizando o que há de mais belo e de mais justo? Defensores do bem estar social e contra todos aqueles que se encontram do lado do mal.

A ficção exerce imenso poder sobre a realidade. Através das telinhas superluminosas da mídia somos abduzidos à cultura do comodismo. Para que preocupação? Se as coisas não vão bem, acalme-se! Logo, logo um super-herói aparecerá trazendo a salvação.  

No mesmo rumo vai a ideia de resolver tudo pelo povo, em nome do povo. Quem disse que uma figura dotada de poderes sobre-humanos é mais capaz de resolver os problemas sociais do que o próprio povo organizado, atingido diretamente por tais problemas? “Quem disse que o cego não pode enxergar?”

Heróis não podem ser confundidos com mártires. Enquanto um separa, personaliza e acomoda; o outro tem sua trajetória marcada pela mistura, coletivizando-se e contribuindo para o despertar da consciência crítica. No encalço da martirização há sempre um rastro de transformação, de semente de libertação. Onde pisam os heróis, nem tiririca nasce.

Na estratégia de manipulação de mentes da política partidária eleitoral este processo é bastante utilizado para a aparição apoteótica dos candidatos. São os heróis do povo e seus superpoderes. As câmaras parlamentares? A própria Liga da Justiça. Para que participação popular nas decisões, quando se tem superrepresentantes? De que vale a luta popular, diante de superdiscursos? O imaginário coletivo é invadido pela ficção sem que, antes, esta seja identificada como tal.

No judiciário, os heróis de toga são apresentados como semideuses guardiões da Verdade. Além do poder de raio-X, são imunes à parcialidade das urnas, à "prestatividade" das corporações e à criptonita. O fato de falarem a mesma língua da mídia comercial e outros setores conservadores não passa de uma supercoincidência, superrecorrente devido à supercompetência em separar o legal do ilícito nos autos.

É em nome do povo que o superjuiz, Sérgio Mouro, vem intimando seletivamente os aqui-inimigos da Verdade. Que Verdade?! Ora, pois! A única! Não existe conciliação de classes quando o assunto é exercício de poder na Liga da Justiça.

Os heróis são internalizados nas consciências para que o povo não enxergue a realidade, para que não veja a trama dominante contida nas linhas e entrelinhas da Veja. Na sociedade capitalista, a burguesia controla os meios de difusão de ideias e, consequentemente, os meios de fabricação de heróis.

Assim, chega de heróis, de estruturas fabricantes de heróis! Construamos com as nossas próprias mãos o poder popular, capaz de apontar no rumo da sociedade que precisam e almejam as pessoas cuja força reside na organização. “Sejamos nós que conquistemos a terra mãe, livre e comum.”

*Josenilson Doddy é militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e da Organização Popular (OPA).

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