sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A lógica do amor

Por Thales Emmanuel*

Ingenuidade é atribuir ao “amor ao próximo” uma conceituação exclusivamente ética, moral. A prioridade dada à pessoa humana versa mesmo é de pressuposto lógico. A ela está condicionada nossa existência.
A igualdade social não é só um clamor, um grito ou uma utopia. A igualdade social é nosso passaporte para o futuro. A tecnologia mais avançada, sequer imaginada nos filmes de ficção, aquela que nos conduz ao amanhã, pode ser experimentada com um simples “sair de si”, e só dessa forma.
Sem esse reencontro com nosso princípio existencial fundador – o outro –, a bomba atômica prevalecerá. A mais-valia esgotará de tal maneira a natureza, que uma reação liquidante para a humanidade será inevitável. A vida exigirá passagem. A prevalência da bomba é nossa morte. E a supremacia da propriedade privada se constitui na mais vergonhosa sujeição da humanidade ao Império da Pólvora.
Engana-se quem acredita que com gás lacrimogêneo ou chumbo, pau-de-arara ou difamação jornalística, encardirá na maioria o estigma da eterna humilhação. A memória transpira, exala-se em sangue, sangue que banha a pele e a favela inteira. Tá na carne, não no cérebro. Quantas Bastilhas arrasadas a mãos nuas serão ainda necessárias até que compreendamos que a mentira e a opressão são cumulativas? Que o “estrondo do trovão” ressurgirá invariavelmente, em feição de revolta ou de Revolução?
Assim, nunca será redundância dizer que o ser humano nasceu para ser gente, não numa sociedade alicerçada em antagonismo de classes, como a capitalista. Antes, trata-se de denúncia, alimento revolucionário.
Que a lógica do amor não deixe se “apagar o arco-íris”!  
   

*Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Juventude cristã na política

Por Josenilson Doddy*



“Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão”, falou papa Francisco em um encontro no Vaticano com crianças e jovens de escolas e movimentos jesuítas.

Há muito se fala que a juventude é o futuro, o amanhã, imprimindo-lhe um papel meramente expectador, inerte, diante de um quadro político e social que depende de sua intervenção cotidiana, presente, para que lá na frente o referido "amanhã" ganhe significado pleno de sentido.

É comum se ouvir comparações da atual geração de jovens com aquela que resistiu bravamente aos anos de chumbo iniciados com o golpe militar-empresarial de 1964. Geralmente em tom saudosista, se diz que a juventude não é como antes.

Parte considerável da descrença para com nossos jovens vem das distorções fomentadas pela mídia comercial, que padroniza o "bom sujeito" na quadratura do comportamento moralmente aceitável, enquanto invisibiliza ou demoniza aqueles e aquelas que escapam ao seu canto de sereia. Parafraseando dom Hélder Câmara, se der comida aos pobres, será condecorado como herói; mas, se perguntar aos pobres sobre a causa da pobreza e, "pior", se engajar-se em sua luta para superar a miséria pela raiz, será crucificado como vândalo, baderneiro ou coisas do tipo, e quem sabe até merecer matéria no Jornal Nacional.

A juventude cristã precisa ocupar a política, mas de um jeito que se enfrente os desafios da construção da justiça social, da igualdade, combatendo as artimanhas e a violência das forças do capital com criatividade, coração e mente. Como ficou demonstrado nas milhares de escolas ocupadas em 2016, contra a PEC 55, batizada de "PEC da morte"; contra o amordaçamento do pensamento crítico, sintetizado no projeto "Escola sem partido"; e por muito mais.

Saibamos também que falsa profecia não tem idade. Alguns jovens são bancados por grandes empresas para que manipulem outros jovens e a consciência do povo em geral. Defendem os interesses dos exploradores, dos Césares, contra a classe explorada.

Ainda que arroguem a Cristo em seus discursos, ainda que frequentem a missa ou o culto semanalmente, negam frontalmente a mensagem libertadora do Reino. São profissionais da mentira! Seu fermento, como o dos fariseus e saduceus de outrora, é pura hipocrisia.

A juventude cristã sonha coletivamente sonhos de libertação e vai à luta para realizá-los, organiza-se, questiona a origem das injustiças. No convívio com o povo oprimido - na favela, na fábrica, nas escolas, no campo - aprende a reconhecer que o essencial e a simplicidade não se separam. Também ensina o que aprendeu, gratuitamente. Assim como Jesus, toma partido, tem um lado e, com seu testemunho, convida, convoca a todos e todas, independente da idade, a assumir a construção de uma nova sociedade, plena de comunhão.

Josenilson Doddy é militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e da Organização Popular (OPA).

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

OS DESAFIOS DA COMUNICAÇÃO DAS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE

*Por Pe. Antonio Julio Ferreira de Souza, C.Ss. R.
O mundo urbano tem trazido inúmeros desafios para as Comunidades Eclesiais de Base, e a cultura da comunicação é um desses desafios. Como diz Joana Puntel, a Igreja encontra-se diante de uma nova ambiência, a cultura midiática. Como dialogar com essa nova cultura? Provocadas por essa inquietação, as CEBs do Brasil realizaram de 23 a 24 de janeiro, em Londrina - Paraná, o 1º Seminário de Comunicação, com o tema: os desafios da comunicação das comunidades eclesiais de base.
O chão de onde parte a comunicação das CEBs com seus contextos, a complexidade dos cenários eclesiais, sociais e políticos deve ser a primeira preocupação. Comunicar a partir do quê? Com quem as CEBs querem interagir? A quem pretendem atingir com a comunicação? Partir da ilha para o continente é um dos grandes desafios, segundo o assessor Pe. Edson Thomassin.
Para fluir a comunicação, não basta que se tenha os instrumentos. Thomassin afirma que se faz necessário descobrir a intencionalidade política do que se quer comunicar. Quais são as abordagens das CEBs? Como se apropriar das potencialidades e da capacidade de construção coletiva das comunidades? Celso Carias, assessor nacional das CEBs, enfatizou a importância do cuidado com que se publica, questionando a relevância dos conteúdos.
Um olhar comunicativo, através da arte, foi provocador no seminário. Para Anderson Augusto, artista plástico, a arte também comunica, unifica, cria... ela, a arte, reflete contextos de vida, de culturas. "A arte é uma forma de externar nossa compreensão de nós mesmos e de mundo, de conformidade ou de transgressão," disse Augusto.
Antônio Baiano, compositor, cantor e animador das CEBs, alertou para que a arte nas CEBs não se torne apenas um apêndice, mas que seja reconhecida como valor e parte indispensável na caminhada. Segundo Baiano, "a música fala quem nós somos, diz de nossa identidade e do nosso compromisso." Um outro desafio apontado pelo seminário, na fala de Miguel Modino, foi a desconstrução da comunicação como instrumento de dominação e poder, característica da grande mídia.
Comunicação, arte e cultura estão estritamente interligados. Para o doutor e mestre em comunicação pela ECO/ UFRJ, Fernando Gonçalves, "no processo comunicativo, a arte como processo simbólico é um espaço rico para questionamentos acerca da comunicação e da cultura."
O seminário de comunicação, para Leoni Garcia, da coordenação de comunicação do 14º Intereclesial, veio mostrar que é possível passar das ideias para o concreto. Com iniciativas como essa, as CEBs só têm a ganhar. Saímos daqui com a missão de investir mais na técnica, nas pessoas e na qualidade das informações. E o mais importante, em tudo isso, no fortalecimento da rede de comunicação.

*Missionário Redentorista, militante da OPA e Jornalista



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Cristianismo e Comunismo


Por Thales Emmanuel*

No início de novembro deste ano, após o Terceiro Encontro Mundial dos Movimentos Populares, no Vaticano, o papa Francisco tornou a assemelhar cristãos e comunistas:
“São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade.”
Logo depois do primeiro encontro, realizado em Roma, 2014, Bergoglio já havia dito algo parecido. No segundo, ocorrido em 2015, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, o papa teceu críticas incisivas contra a sociedade capitalista: "Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Esse sistema é insuportável."
Ao longo da história, a aproximação entre Jesus e Marx (principal referência da luta comunista moderna) foi sempre marginalizada e muito perseguida. Esse fato pode ser explicado pelo desconhecimento, por preconceitos; mas, sobretudo, pela manipulação  promovida para atender a interesses econômicos e políticos dominantes, que sempre lucraram com a separação.
Jesus se doou pela construção de um mundo em que todos tivessem vida em plenitude. Para tanto, defendeu a partilha radical do pão e uma forma de governo que, como fermento na massa, servisse à participação popular. Na Europa do século 19, Marx se envolveu na luta por uma sociedade sem exploradores e explorados. Suas teses revelaram ao mundo a origem das desigualdades sociais. Em suas respectivas épocas, ambos marcharam na contramão dos poderes estabelecidos.
Padre Ernesto Cardenal, participante da Revolução Nicaraguense, conhecida pelo massivo engajamento cristão, fala que Jesus e Marx são diferentes, mas não incompatíveis. Conta ainda:
“Declarei, muitas vezes, que sou marxista por Cristo e seu Evangelho. Que não fui levado ao marxismo pela leitura de Marx, mas pela leitura do Evangelho. O Evangelho de Jesus Cristo me fez marxista, como eu já disse e é verdade. Sou um marxista que crê em Deus, segue Cristo, e é revolucionário por causa do seu Reino.”
Na década de 1960, em meio a regimes militares que golpeavam a América Latina, o compromisso cristão com a causa do oprimido ressurgiu rebatizado de Teologia da Libertação. O marxismo serviu de fonte para compreensão e ação em uma realidade extremamente hostil à maioria da população.

A endemonização conservadora que se escancara em setores sociais privilegiados sempre que Jesus e Marx se descobrem íntimos é facilmente entendida por profecias como a de Che Guevara:
“A Revolução na América Latina só acontecerá quando os comunistas deixarem de ser preconceituosos com a fé dos cristãos; e os cristãos deixarem de ser proselitistas com os comunistas. Nesse dia, a Revolução será imbatível.”
Na semana em que multidões de pessoas comovidas do planeta inteiro se despediram de Fidel Castro, falecido aos 90 anos de idade, vale recordar o que disse certa vez o comandante da Revolução Cubana:
“Ele (Jesus Cristo) foi o primeiro comunista. Repartiu o pão, repartiu os peixes e transformou a água em vinho.”
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Para aprofundamento da temática:
- Fidel e a Religião, livro de Frei Betto.

- Descalço Sobre a Terra Vermelha, filme que conta a história de dom Pedro Casaldáliga. No youtube.


*Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

GENTILÂNDIA


Eliton Meneses*


Normalmente vivo por cá, espremido nesse canto de praça, como Deus tem permitido. Fui despejado do quarto onde morava quando as coisas pioraram e deixei atrasar o aluguel. A mulher não aguentou essa minha vida. Ganhou o mundo com os meninos. Nunca mais tive notícias deles. Não sinto mais saudade. Nessa vida a gente se acostuma com tudo. Essa minha vida é difícil de seguir. Arrumei um carrinho de reciclagem, um colchão velho, umas caixas de papelão, um cobertor, um prato e uma colher e me estabeleci nesta praça. A polícia às vezes aparece, faz uma vistoria, mas quando encontra alguma coisa digo que é para o consumo próprio e acabam me deixando em paz. A venda é muito pouca, a moçada da universidade não tem grana. Na sexta à noite, a galera entendida se reúne na praça e melhora um pouco o movimento. Afora isso, tenho que complementar o lucro escasso com a reciclagem e um tempo pastorando carros.

A senhora idosa às vezes me traz um prato de comida, uns estudantes me dão um chocolate, um pessoal me traz uma camisa de partido...; vou assim tocando a vida, observando o movimento da praça. De manhã cedo chega a turma da caminhada, no fim de tarde a turma da academia da praça, no sábado os africanos jogam na quadra... Terça e quinta, sempre antes das seis, o pai e o menino de uns sete anos chegam para jogar. Penso em como andarão os meus. Admito que cometi muitos erros nessa vida. Quando quis me corrigir já era tarde. Não sei se tenho o que mereço. O certo é que as penas nunca correspondem às culpas.

Vejo o olhar indiferente dos caminhantes, a cara de nojo de um jovem gordo, o desdém do dono da banca de revista... Quando Amanda aparece à noite, negocio meia hora com ela. Alguém disse que este país não pode dar certo porque, dentre outras coisas, puta se apaixona e traficante se vicia. Amanda, coitada, de tão viciada, mal se sustenta em pé. Também nunca me deu sequer um desconto pelos muitos galanteios que lhe faço. Quanto aos traficantes, ao menos os da praça, de fato, não apuram nem para sustentar o vício.

Ando decrépito, sujo, maltrapilho e com poucos dentes. Os dois únicos amigos que me visitam são doidos varridos. Roberto, doido de nascença, e Nélson, enlouquecido pela pedra. Roberto há poucos dias tentou afugentar, com um porrete, um casal lésbico que se beijava na praça, mas acabou no hospital depois de uma pedrada nas costas... Nelson fugiu de um abrigo ainda criança e resolveu morar nos arredores da praça. Diz que ficou perturbado depois de uma surra da polícia. Tem alguns intervalos de lucidez, vive da caridade alheia, dorme no jardim da casa do Roberto e não furta nada de ninguém.

O dono da banca não tem vida. Fica de domingo a domingo no batente. Abre cedo e fecha tarde. Dizem que possui várias casas alugadas. Nunca me deu um cigarro. Não queria a vida do dono da barraca. A turma que dorme na praça consegue ser mais feliz. Não precisamos de muita coisa para viver. O passado não se muda. No futuro talvez reúna forças para uma mudança. O dono da barraca me recrimina porque não sou igual a ele. Roberto diz sempre que há tempo de plantar e há tempo de colher. Nélson costuma dizer que não preciso mudar, porque em time que está ganhando não se mexe.

* Eliton Meneses é poeta e defensor público no estado do Ceará.

sábado, 12 de novembro de 2016

“Fora, Temer!” e muito mais: manifestação popular fecha BR 304 por mais de 8 horas


Por Thales Emmanuel*

Ontem, 11 de novembro, em consonância com a luta nacional organizada por setores da classe trabalhadora, aproximadamente 1000 pessoas fecharam por mais de 8 horas o trânsito de veículos na BR 304, nas imediações do km 43, Aracati-CE.
O protesto, que começou por volta das 7 horas da manhã, contra a retirada de direitos promovida pelo governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB), tinha também outras reivindicações, voltadas principalmente para garantia do acesso à água, à terra e por soluções para os impactos causados pela obra de duplicação de trecho da citada rodovia.
Em torno da Organização Popular (OPA), participaram da mobilização lutadores e lutadoras de vários municípios da região, do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST), da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), do Sindicato dos Servidores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (SINDSIFCE) e de comunidades, rurais e urbanas, quilombolas, operários, professores/as e estudantes.
Uma audiência de negociação foi agendada com o DNIT, mas as pautas relacionadas ao governo estadual não obtiveram resposta. O silêncio do governador Camilo Santana (PT) revoltou a população:
“O que é preciso fazer mais para que sejamos escutados? (Suspiro) Seja lá o que for, faremos. Somos atingidos por problemas sérios aqui. A falta de água é um deles. Falta água para o povo, mas sobra para as fazendas de camarão, que estão poluindo tudo. E o governador, nada responde?! Para que serve um governante? Para quem trabalha? Também tem outras questões, como a da estrada, do cruzamento da CE com a BR. Queremos uma solução. Estão querendo acabar com o nosso histórico acesso.”, revelou, indignada, dona Fátima, moradora da Vila São José.       
No que diz respeito à dimensão nacional, a indignação não era menor:
“Fora, Temer! Pelo Poder Popular! Precisamos reconstruir o Brasil, necessitamos de outro modelo econômico, de outra política, precisamos de participação popular real, direta. Essa não é somente uma mobilização contra o autoritarismo desse governo golpista e seus parceiros. Esta é também uma luta por um projeto alternativo de sociedade. Essa mudança não virá de cima, mas de baixo, através de muito enfrentamento e organização.”, declarou Francisco Augusto, jovem manifestante.
Os/As participantes garantem se manter mobilizados/as até alcançarem os objetivos.

*Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A questão agrária e Florestan Fernandes


Por Thales Emmanuel*
A sociedade brasileira foi fundada em um processo violento de colonização. A implantação do modelo agroexportador conhecido como plantagem monoculturou a vida por aqui. A biodiversidade da floresta, a florestidade dos povos nativos, foi invadida pelas cercas sem alma das sesmarias. E assim se ergueu o Estado: Made in Europe, ora pois!
O capitalismo nascente criou e concentrou a propriedade, parto cesárea da política monoculturada que se instalou como única política aceitável. A mão que segurou o bisturi e degolou cabeças que resistiam, também assinou a Lei de Terras de 1850, ratificação da pilantragem real. A maior grilagem da história do Brasil embasou de garantias o racismo estrutural. A Abolição não veio sem luta, nem a Lei Áurea sem o aprisionamento prévio da terra. Exilada no morro, a África observa ao longe o continente inacessível que levantara.  
“Quem descobriu o Brasil?”, indaga o rádio, o livro, responde a palmatória, insistentemente. Uma décima quarta caravela desembarcou pelas páginas da língua oficial. A nação cresce devota de seu descobridor. Cuidado com a resposta, ela pode mostrar que a pergunta não faz, absolutamente, nenhum sentido. Maldita seja toda história cujo português é bem dizido!
“Essa terra tem dono!”, “Reforma Agrária: na lei ou na marra!”, a dominação jamais imperou sobre o silêncio. Em 1964, o povo gritou 64 vezes 64 pelas Reformas de Base; Cabral então reapareceu em tanques de guerra: “Golpe à vista!”. “Ressurge a Democracia”, declarou o editorial de O Globo em 2 de abril daquele ano. A espada e a cruz. US portugueses já não falavam português. Tivesse escrito “Democracia” com “d” pequeno, quem sabe não pertencesse ela à maioria.
Além de golpes de Estado, a concentração da propriedade da terra determinou a organização da produção. A tecnologia da Segunda Guerra atracou com o discurso do fim da fome, uma “Revolução Verde”, mas trouxe mesmo o envenenamento da vida. Na academia, nos centros de pesquisa, o natural tornou-se arcaico e os agrotóxicos foram laureados como símbolos da modernidade, da única modernidade bem-vinda ao campo brasileiro. O homo sapiens existe há 200 mil anos, mas foi somente a partir da segunda metade do século XX que o herbicida passou a estar na sua mesa.   
De lá até hoje, a “Revolução Verde” – verde-dólar –, em suas distintas fases, aumentou às alturas o lucro de banqueiros e industriais, as despesas do Estado – que é quem a financia –, o número de más-formações congênitas, o de mortes matadas pelos velhos e novos tipos de cânceres que vão sendo fabricados em fusão com a química-farmacêutica; a “Revolução Verde” multiplicou a fome no mundo, batendo recorde histórico.
No campo e na cidade, o Brasil foi formado por povos invadidos, despejados, retirantes-retirados, por povos que resistem ao “Descobrimento” ainda hoje.
Em 04 de novembro último, em Guararema-SP, a Polícia Militar, articulada com a Civil, invade a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), vinculada ao Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST). A PM dispara armas de fogo com munição letal. Como em 1500, nenhum mandado judicial é apresentado. Os capitães do mato se machucam ao pular o muro e depois agridem o bibliotecário da Escola, um senhor de idade, portador de mal de Parkinson, que tem seu rosto prensado contra o chão e uma costela quebrada. O jovem que alerta os algozes sobre as doenças da vítima é detido por “desacato à autoridade”.  
Nas mídias alternativas foi grande a repercussão. Tudo filmado! Muita gente chega em apoio ao MST. A Rede Globo, então, se vê obrigada a noticiar o fato. No programa do Fantástico do domingo seguinte, a emissora criminaliza a luta pela Reforma Agrária, dando a entender que o MST é formado por quadrilhas de bandidos, pretendendo justificar e banalizar a repressão do Estado e preparar terreno para outras violações. O alvo, na verdade, é a classe trabalhadora. É preciso quebrar a resistência dos de baixo. Típico de uma empresa que nasceu para criar ou adequar a interpretação dos fatos à ânsia de lucro de seus patrocinadores.
Aliás, vem das gerências de Marketing e de Comunicação dos Marinho a campanha “Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é Tudo”, tentativa de alavancar o ideário neocolonial do agronegócio.
Como diria o professor Florestan Fernandes: “Não se deixar cooptar, não se deixar esmagar, lutar sempre!”. Há mais de 500 anos, todas as possibilidades dos “descobertos” de se descobrirem passam por essas três premissas.


*Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).