quinta-feira, 13 de abril de 2017

Até quando?

*Por Josenilson Doddy

Até quando nós, filhos e filhas da classe trabalhadora, pastorais, organismos, entidades, movimentos e organizações populares... até quando nós, militantes populares, lutaremos para manter as estruturas deste sistema? 

Por que alimentar as estruturas do capitalismo quando este já não se suporta, como diz Francisco? Hipocrisia conciliatória achar ser possível servir a dois senhores. "Ou Reino de Deus ou de Mamón" (Mt-6,24).  

Chega ser angustiante. A militância parece ainda não compreender que se trata de uma luta de classes, cujo os interesses não se beijam, a não ser tecnicamente e em prejuízo do lado dominado 

O projeto de Jesus rompe com as estruturas de poder vigentes, parte das bases, de um movimento popular. Não há espaço para sistemas de opressão em sua fé na construção da sociedade de vida plena para todos.  

O princípio da partilha radical do pão e a união da classe empobrecida assustaram os de cima. Sempre os assombraram. Por conta disso, invariavelmente, reagem com manipulação ideológicaprisões, torturas e assassinatos, como fizeram com o filho de Maria há mais de dois mil anos. Mas, como diz Che Guevara, matam o homem, não seus ideais 

Nossas faces já foram surradas incontáveis vezes. Somos a classe trabalhadora. Nossa cruz chama-se sociedade de classes. Nossos direitos estão sendo tomados mais uma vez. Lá se vai nosso suor e nosso sangue, novamente. Só que agora não aceitaremos mais gratuitamente os machucados. Nossa luta parte da luta por direitos, mas não ficará só nela. Ou derrubamos este sistema ou ele porá fim a tudo.

Para tanto, precisamos construir um bloco anticapitalista, com trabalho de base continuado, com planejamento. Urge superarmos as articulações meramente pontuais, que se desfazem rapidamente ou nunca se fazem, pois não conseguem avançar para além do plano imediato. Precisamos por a mão na massa.

*Josenilson Doddy é militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e da Organização Popular (OPA).

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Nosso Abril Vermelho de cada dia*

 Pulverização aérea de agrotóxico em um imenso deserto verde
                                                                            
**Por Thales Emmanuel
Em 1996, no Pará, 21 camponeses do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) foram assassinados pela Polícia Militar quando marchavam em direção à capital, na luta pela Reforma Agrária. Dezenas ficaram para sempre sequelados/as. 

17 de abril, data do Massacre de El Dourado dos Carajástornou-se Dia Internacional da Luta Camponesa. No Brasil, todo o quarto mês do ano é dedicado a ações de denúncias contra o latifúndio e a cumplicidade do Estado, bem como ao anúncio de um outro projeto para o campo. Essa jornada de lutas é conhecida como Abril Vermelho.
    
  Monumento erguido em memória dos mártires de El Dourado dos Carajás

A concentração da terra no Brasil (atualmente 1% de proprietários controla 50% da área rural) está diretamente ligada ao domínio privado sobre os recursos naturais (grandes empresas como donas das águas subterrâneas, por exemplo), ao inchaço populacional nos centros urbanos e à qualidade dos alimentos (cada brasileiro consome em média 7,3 litros de calda tóxica por ano). É neste indignante cenário que a Bancada Ruralista expressa cada vez mais o retrato de um país estruturado para que a lucrativa satisfação de uns poucos se erga sobre o envenenamento e a marginalização de milhões.

Resultado da junção do latifúndio com a grande indústria, os bancos, a mídia empresarial e o Estado - financiadofiel do projeto -, o agronegócio é o principal rosto do capitalismo no campo brasileiro.

"Agro é tech, agro é pop, agro é tudo." A campanha confeccionada pelo departamento de marketing da Rede Globo demonstra bem o lado e o papel assumido pela poderosa emissora na trama. Dá para entender os eufemismos de Fátima Bernardes ao apresentar a Imperatriz Leopoldinense na Marquês de Sapucaí este ano. O samba-enredo da escola foi um verdadeiro grito de guerra contra os "fazendeiros e seus agrotóxicos".

De 1986 para cá, período da chamada "redemocratização", ocorreram aproximadamente 2000 assassinatos no campo brasileiro envolvendo grandes proprietários rurais, com pouquíssimos processos resultando em condenaçãoSó do MST, presentemente, são 11 presos e 12 exilados políticos. 

A mídia empresarial trata as pessoas e organizações que lutam pela Reforma Agrária como violentas e perturbadoras da "boa ordem", enquanto propagandeia o agronegócio como herói nacional. Não mostra que a Bayer, por exemplo, gigante que fabrica o agrotóxico, produz também o medicamento a ser utilizado no tratamento do câncer - doença causada pelo consumo do alimento envenenado.

Manifestação do MST em Brasília

A criminalização do MST e demais movimentos populares do campo visa impedir que uma proposta alternativa, desvinculada dos interesses das grandes corporações - que promova a repartição da terra, o respeito à biodiversidade e assegure a saúde dos alimentos -, ganhe força irreversível na sociedade.
  
"A Reforma Agrária, além de uma necessidade política, é uma obrigação moral", lembra papa Francisco, citando o "compêndio da doutrina social da Igreja". 

Apoiar o Abril Vermelho é um dever cristão, para dizer o mínimo. 

PS.: Este ano, a jornada terá um caráter todo especial, pois se unirá às lutas da classe trabalhadora contra o governo golpista de Michel Temer e seu projeto neoliberal, que amputa direitos do povo em benefício das grandes empresas daqui e de fora. 

* Texto publicado originalmente no Informativo Redentorista - Vice-Província de Fortaleza.

**Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).
_________________________ 
Fontes para aprofundamento: 
O veneno está na mesa (I e II), documentário de Silvio Tendler. 
Mataram Irmã Dorothy, documentário de Daniel Junge. 
El Dourado dos Carajás - 10 anos, documentário do Setor de Comunicação do MST. 
Reis do Agronegócio, música de Chico César e Carlos Rennó. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Comissão de organizações populares se manifesta por audiência e é recebida com repressão em prefeitura do Ceará


Por Josenilson Doddy*
Ontem, 10 de abril, em Aracati-CE, a Organização Popular (OPA), junto ao Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST), Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Fórum Comunitário de Aracati se mobilizaram para reivindicar audiência com o executivo do município.
A comissão de aproximadamente 150 pessoas trazia pautas de 15 comunidades quando foi barrada na entrada da prefeitura por forte aparato da guarda municipal. Com o portão do órgão “público” fechado, a guarda lançou spray de pimenta contra os/as manifestantes. A repressão foi oferecida pelo prefeito Bismark Maia (PTB) em resposta às necessidades e demandas trazidas pelo povo.

Segundo relatos, esta tem sido a política do atual prefeito: aprofundar o sucateamento do sistema público de saúde e educacional, fechando postos de atendimento e escolas nas comunidades, reduzindo investimentos, além da resistência em renovar o convênio com o Hospital e Maternidade Santa Luísa de Marillac, fundamental à vida de crianças e mulheres da região. Sem contar as estradas, que se encontram intransitáveis e sem previsão de reforma. "O prefeito tem práticas do coronelismo."
Para Tiago Pereira, militante do MST, “é mais uma prova de que o povo não pode esperar boas coisas de quem está no poder amparado por interesses de grandes empresas. A verdadeira política do povo vem das ruas, da luta. Somente o povo organizado será capaz de mudar essa triste realidade e fazer as transformações sociais necessárias.”

Jocélia Ribeiro, da coordenação da OPA, fala da “falta de respeito com as pessoas e com as organizações aqui presentes. A atual gestão está em consonância com o governo federal: golpista e ditador. Não devemos nos enganar com a falsa democracia por eles anunciada. Lutemos para construir uma democracia que seja da maioria.”

“Hoje fomos desrespeitados, mas voltaremos com mais gente. Ninguém é maior que a força do povo. O que é público será público. Não desistiremos de nossos direitos. Lutaremos por eles até o fim.” Declarou Gil, da comunidade Cajueiro e da OPA.
A manifestação durou das 8 às 14:30 horas, período em que nem o prefeito apareceu nem o centro administrativo da prefeitura funcionou.



 *Josenilson Doddy é militante da OPA e da PJMP.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Francisco

Por Pe. Julio Ferreira, C.Ss.R*

Logo no início do papado de Francisco, escutei de um padre amigo: "Agora sinto-me validado como padre". No dia 13 de março de 2017, quando se chega aos quatro anos de Francisco como bispo de Roma, sente-se que o sentimento expresso por meu amigo padre é, na verdade, compartilhado pela Igreja dos pobres. Todos nós nos sentimos validados em nossas palavras e ações na defesa da vida. 

Essa validação nos faz lembrar a ressurreição de Jesus. Quando os grandes e poderosos, que mataram Jesus, pensaram ter a última palavra, Deus-pai o ressuscita. Ele valida tudo o que o filho disse e fez. Somos validados, depois de perseguidos (muitas vezes calados pela própria Igreja e pelo "fermento dos fariseus" que se infiltra em nossas CEBs, em nossas lutas, nos movimentos populares etc). 

No dia 13 de dezembro de 2013, Francisco enviou uma mensagem para o 13º Intereclesial das CEBs. Na mensagem, recordou o documento de Aparecida: "As CEBs são um instrumento que permite ao povo chegar a um conhecimento maior da palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos (DA 178). E conclui a mensagem convidando os participantes do 13º Intereclesial "a vivê-lo como um encontro de fé e de missão, de discípulos missionários que caminham com Jesus, anunciando e testemunhando com os pobres a profecia dos novos céus e da nova terra." Foi a primeira vez na história dos Intereclesiais que um papa nos dirigiu uma mensagem. 

Aos movimentos populares, em um primeiro encontro, no dia 28 de outubro de 2014, Francisco agradeceu por terem aceito o convite para debater os problemas sociais. Disse-lhes: "Vós viveis na vossa pele a desigualdade e a exclusão. Anseios como terra, trabalho e casa deveriam estar ao alcance de todos, mas encontram-se distantes da maioria das pessoas, enfatizou Francisco. "É estranho, mas se falo disto para alguns, o papa é comunista." Ao final do encontro, Francisco exortou que os movimentos populares continuem lutando, pois é um bem que se faz a todos.  

Como não se sentir validado diante de um papa que tem a sensibilidade de reconhecer que a missão da Igreja é curar as feridas do mundo atual? "Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos." Um papa que tem a coragem de questionar o sistema econômico vigente e dizer que ele não se sustenta mais?

E, por fim, como não  sentir que se está no caminho certo, quando o próprio papa, que nos valida em nossas ações na construção do Reino, é incompreendido? Por que não dizer: perseguido pelos que desejam que a Igreja continue servindo a dois senhores (como se fosse possível)? 

* Missionário Redentorista, militante da OPA e jornalista.