quinta-feira, 18 de agosto de 2016

NOSSO TEMPO




                                                                                      *Por: Eliton Meneses


Não serei o arauto do apocalipse;
Não cairei em cantilena mendaz;
Cansei de temer algoz rancoroso;
Cansei de esperar heroísmo fugaz;
O mundo segue a trilha lentamente
No compasso de caminheiro sagaz;
A esperança se faz no tempo longo;
A ruína na pressa do dragão voraz.
Sairei taciturno pela rua já deserta,
À espera de uma nova gente audaz,
Com força para um novo recomeço,
Às voltas com um bando mui tenaz.
Sigo o farol gauche da humana saga:
Sonho de um mundo de amor e paz.
Se tu não segues rumo ao horizonte,
Não me peças que eu ande para trás.


 * Eliton Meneses é poeta e Defensor Público no estado do Ceará.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Presente de Dia dos Pais


Por Thales Emmanuel*

No dia 07 de maio deste ano, em Fortaleza-CE, um acidente no Km 06 da BR 116 gerou grande comoção social.
Era sábado, véspera de Dia das Mães. Laís e Raphaella – mãe e filha –, mais Fátima – amiga e vizinha –, voltavam para casa depois de participarem de uma celebração religiosa.
Segundo relatos, mais ou menos no mesmo horário, Abelardo, um jovem de 24 anos, tomava de assalto uma caminhonete e, na tentativa de fuga, sendo perseguido pela Polícia Militar, colide violentamente com o veículo que conduzia as três mulheres, que morrem na hora. Abelardo sobrevive com escoriações no corpo.
Em 2015, Márcia, designer de interiores, não só frustrou a mídia sensacionalista, que já encampava a carnificina propagandística pela redução da maioridade penal, como surpreendeu muita gente ao provocar reflexões na contramão do que somos induzidos e coagidos a sentir diante de situações como a que precisou enfrentar. Seu ex-marido, médico, foi morto a facadas quando pedalava na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro-RJ. Em meio à tragédia, declarou a mulher: “Ele foi uma vítima de vítimas”.
A ideologia dominante não significa somente a reprodução de ideias convenientes a uma determinada lógica de dominação. Nossos sentimentos, a maneira como afloram nas mais variadas circunstâncias, são igualmente produtos e, em regra, sustentáculos de uma mesma normatividade social.
Assim, diante da dor da perda abrupta, não é difícil entender porque somos levados a confundir justiça com vingança pessoal, castigo e repressão policial com segurança.
A ocultação proposital da raiz do problema não desponta sem o arrebatador entorpecimento das estratégias propagandísticas, que nos fazem vagar delirantes, na superficialidade das abordagens.
Para bem, a história, mesmo a história de uma tragédia, não morre com a morte nem é encarcerada com a prisão.
Abelardo e sua família são do interior. Durante algum tempo, foram acampados da Reforma Agrária. Estiveram em baixo de lona preta, junto com outras famílias, às margens de uma grande propriedade vazia de produção e de sentido social.
Muito jovem e praticante de artes marciais, pretendia organizar um espaço e dar aula a quem quisesse da comunidade, logo que a terra fosse conquistada. Mas o latifúndio se manteve intacto ante qualquer bom senso em relação à vida daquelas famílias e a terra seguiu cercada e abandonada, sem ser entregue aos trabalhadores e trabalhadoras.
Abelardo, então, foi embora com seus pais, saiu do acampamento. Anos depois reapareceu nas páginas policiais de jornais de todo país.
Algumas perguntas são inevitáveis: Qual a responsabilidade do latifúndio e de seus governos na morte das três mulheres? Onde estariam os Abelardos da vida, fazendo o que, caso a Reforma Agrária fosse já uma realização e não uma antiga reivindicação popular?
Em Goiás, dois militantes do Movimento Sem Terra estão presos, enquadrados na Lei Antiterrorista, por lutarem pelo direito à terra. A Justiça... quanto sangue inocente há em suas mãos? Quantas mães morrerão ainda, até que se entenda que a propriedade não pode estar acima da vida? Até que o Estado, que tem isso como cláusula pétrea, seja abolido?
Não se trata aqui de isentar o indivíduo de suas responsabilidades. Antes, porém, de relembrar que todo problema pessoal é um problema social e todo problema social é um problema familiar, pessoal. Queiramos ou não.


Dia dos Pais está chegando. Que sociedade gostaria de receber de presente? Que mundo pretende deixar para a geração de futuros pais? O que estamos dispostos a construir? O que fazemos para destruir o que nos destrói?

*Thales Emmanuel é militante do Movimento dos/as Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST) e da Organização Popular (OPA).   

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Somente a opção preferencial pelos pobres já não basta

Por Josenilson Doddy* 

Qual a utilidade da pobreza, senão para servir como meio de sustentação desse sistema insuportável?  
Ora, é preciso que se tenha pobres para que a classe burguesa siga dominante. O exército industrial de reserva é um exemplo. A fabricação da pobreza marginal aos meios de produção determina o impiedoso grau de exploração da pobreza incluída no trabalho assalariado. 
Mas o capitalismo, incompatível com a realização da justiça e da igualdade sociais, depara-se, mortalmente, com a classe trabalhadora (pobres), a única força propulsora capaz de superá-lo.   
O antagonismo das classes torna ficção qualquer tentativa que tenha no diálogo entre exploradores e explorados o melhor jeito de resolver os conflitos. 
As Comunidades Eclesiais de Base - CEBs, a parte da Igreja cujo carisma passa pela opção preferencial pelos pobres, têm a grande missão de fazer trabalhadores e trabalhadoras perceberem sua força transformadora em meio a tantos sofrimentos. 
As CEBs não podem lidar com o sofrimento dos pobres seguindo a cartilha da dominação. O sentimento de pena conduz a gestos de caridadegestos de esmola, esmola de pão, esmola de dedicação. Por isso desvia os rumos do projeto de justiça e vida plena. 
Numa sociedade de tanta fartura, a pobreza só pode ser um fenômeno artificial. O pobre é, na verdade, empobrecido.  
assistencialismo é a política de dominação que bloqueia o acesso dos/as empobrecidos/as às origens do empobrecimento. Por essa razão, a práxis da militância das causas populares não pode se furtar em questionar a pobreza: De onde vem?   
A compaixão faz sentir nas entranhas a dor "alheia". A indignação sacode corpo e alma para uma atitude. O olhar alimenta esperanças rebeldes, contribuindo para que trabalhadores e trabalhadoras percebao quão necessário é se organizar e lutarOs conflitos entre as classes não se iniciarão aíapenas se tornarão perceptíveis, compreensíveis. Os/As empobrecidos/as, despidos/as de ilusões, estarão preparados/as para os embates necessários. 
Para a construção de uma nova sociedade, a preferência pelos/as pobres é um primeiro passomaspara que de fato a derrubada do sistema capitalista aconteça, é preciso ir além, é preciso atuar para que os/as próprios/as pobres se unam e façam acontecer.     


*Josenilson Doddy é militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e da Organização Popular (OPA).