quinta-feira, 15 de março de 2018

deus Mercado e o Dogma da Dívida Eterna*


Por Thales Emmanuel**

“Todos acreditam em Deus, porque Deus é aquilo que colocamos em primeiro lugar.” As palavras do padre Albert Nolan nos conduzem a uma inevitável e importante reflexão: Quem é Deus, para mim? Que deus governa a sociedade em que vivemos? As perguntas aparecem separadas por questão puramente metodológica, já que é impossível saber quem eu sou e, consequentemente, a ideia que tenho do divino, separando-me do meio em que construo relações sociais e que, ao mesmo tempo, sou construído por elas.  
Se Deus é sinônimo de prioridade de vida, como sugere Nolan, deduzimos então que as crenças, tanto individuais como sociais, revelam-se mais pelo que se é experimentado, praticado, do que pelo que se é falado. Assim, as respostas sobre “quem é Deus?”  se encontram, para o indivíduo, no seu fazer cotidiano; para a sociedade, na forma como organiza e estrutura suas prioridades.
O deus que comanda a sociedade capitalista se chama Mercado. Mercado é um deus que se manifesta à primeira vista pela total devoção dos seres humanos ao mundo das coisas. Sua teologia é simples e fácil de entender: quem possui bens, é gente de bem; quem não possui, nada é ou é sujeito do mal. Quem tem mais propriedades é mais ungido do que os proprietários menores e os sem propriedade são os escolhidos para servir, como descartáveis, à penitência do trabalho assalariado. Isso quando há oferta de emprego, algo cada vez mais raro, já que a tecnologia, enquadrada no rito devocional que sacraliza a propriedade privada dos meios de produção, substitui de forma acelerada o ser humano pela máquina. O espírito que rege a sobrevivência dos sem emprego, deus Mercado batizou com o nome de “empreendedorismo”. E o Estado, ao invés de promotor de direitos, revelou-se como sendo a força pela qual o todo poderoso opera o milagre de fazer com que a maioria se submeta aos interesses da minoria.  
Os bancos assumem hoje em dia o papel de sumo sacerdote do sistema. São os principais intermediários da relação entre Mercado e a sociedade em geral. Definem critérios de desenvolvimento econômico, políticas de Estado e acorrentam nações inteiras com o dogma da “dívida pública”. Quem ouse questionar esse dogma, corre sérios riscos de excomunhão. Entra governo, sai governo, e nada se fala, muito menos se faz, para auditar a dívida.
“Auditoria é um instrumento para investigação de dados e documentos.” Uma maneira de saber quem contraiu a dívida, em que condições, quem se beneficiou com ela, em que foram aplicados os recursos, que fatores a fizeram crescer e o que há de fraudulento e de legítimo em todo o processo. No Equador, uma auditoria oficial realizada pelo governo a partir de 2007 resultou na anulação de 70% da dívida externa em títulos daquele país. No Brasil, o governo golpista de Michel Temer oferece como sacrifício os direitos da classe trabalhadora e do povo mais empobrecido em honra ao juramento feito no altar da bolsa de valores. Aproximadamente 40% do Orçamento Geral da União atualmente é  revertido para pagamentos de juros e amortização. Para termos noção do tamanho da violação, em 2011, menos de 0,01% do Orçamento da União foi “investido” na área de habitação. Valor este reduzido à nada com a recente imposição golpista do congelamento por vinte anos em investimentos sociais. E o Brasil com suas 33 milhões de pessoas sem teto! 
Já se perguntou algum dia quantas vidas são sacrificadas em adoração de Mercado? Esse deus não se comove ante o genocídio planejado. Ele inventou a culpa foi para os endividados, não para os credores.
Estudos estimam que a dívida pública da América Latina já foi paga integralmente mais de seis vezes. No entanto, na maioria dos países ela continua aumentando a passos acelerados. No Brasil, em 2011 seu estoque alcançou o montante de 3.228.167.962.882,24 (3 trilhões, 228 bilhões, 167 milhões, 962 mil, 882 reais e 24 centavos). Em 2017, a cifra alcançou os 5.580.745.791.677,64 (5 trilhões, 580 bilhões, 745 milhões, 791 mil, 677 reais e 64 centavos), segundo dados do Banco Central, citados pela iniciativa popular Auditoria Cidadã da Dívida. 
A grande mídia, responsável por espalhar a boa nova de Mercado, explica o fenômeno do “quanto mais se paga, mais se deve” como sendo mistério sobrenatural ou obra da imperfeição humana. Expiação necessária à salvação do desenvolvimento do modelo econômico. No entanto, o fato é bem outro. Nada de mistério ou incapacidade administrativa! Trata-se é de uma perversa lógica de concentração de riquezas.
Os bancos não emprestam com a finalidade de um dia verem as dívidas quitadas. Com as exigências que fazem como condição a concessão do recurso, sentenciam o que deve ser o grosso da política econômica do país recebedor. Alteram leis, definem o destino prioritário da aplicação do que sai dos cofres públicos, interferem na regulamentação do sistema eleitoral e por aí vai. A decisão governamental pela privatização do patrimônio público, por exemplo, passa pelo aval e pela ordem dos bancos, que ficam com o montante apurado, como manda a lei. A dívida não existe para ser quitada, mas para ser paga uma, duas, setenta vezes sete vezes.
Quem acredita na dívida eterna sabe que ela quebrará quantas vezes for possível a economia do país devedor, forçando-o recorrentemente a contrair novos empréstimos, que não aparecerão antes que os votos de total obediência ao mais recente pacote de exigências seja renovado. Enquanto o povo, a classe trabalhadora, é predestinado do alto a pagar a conta até que a morte os separe, oito banqueiros possuem mais riqueza do que a soma das rendas de metade da população do planeta, equivalente a 3,8 bilhões de pessoas. Por essa razão é que o poeta, tornando-se infiel à vontade de Mercado, questiona: qual crime maior, roubar um banco ou fundá-lo?
O regime militar-empresarial iniciado com o Golpe de 1964 agravou tanto o problema da dívida pública, que comissões parlamentares para investigação das razões da crise foram montadas a partir da década de 1980. Relatórios apontam graves indícios de irregularidades, ilegalidades, além de renúncia à soberania nacional. Revelações que deveriam levar à nulidade, à suspensão imediata do pagamento. Mas, ao invés disso, seguem abafadas, engolidas pela mídia, pelo poder judiciário, pelo congresso e por sucessivos governos que rezam na mesma cartilha.
A próxima graça ambicionada pelos bancos representa mais um grave crime contra o povo brasileiro: a destruição da Previdência Social. As ruas adiaram sua consumação, mas, se não cuidarmos, logo em breve ela estará em pauta novamente.
A sociedade, cujo deus é o mercado, existe embasada em um pecado estrutural, institucional: a desigualdade social. Atendendo à vontade do Pai, Jesus fez bem diferente. Encarnou o divino no amor ao próximo, transformou a economia em comunhão radical de bens e o poder em serviço, coletivizando as decisões. Em seu cotidiano, nem o sábado escapou de seu testemunho de organização popular nem a cerca o impediu de saciar quem tinha fome. Jesus priorizou a vida com a própria vida, a dignidade da pessoa humana, combatendo aquilo que se punha em sentido contrário.
Ensinou-nos que, para afirmar o Deus da vida, é preciso negar o deus Mercado. Não se pode servir a ambos. De modo que a luta pelo não pagamento da dívida pública ou mesmo por uma auditoria oficial, com participação popular e poder de deliberação, tornam-se, na atual conjuntura, bandeiras que, indiscutivelmente, contribuem para fazer dessa terra o céu de todos.
Mais informações: www.auditoriacidada.org.br 
*Publicado originalmente em Informativo Redentorista, fev/mar de 2018.
**Thales Emmanuel é militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

terça-feira, 13 de março de 2018

Um Galileu Suspeito nos Morros do Rio*


Por Thales Emmanuel**

- Mãe, por que há sempre muitos soldados em todo lugar que andamos? 
Jesus nasceu e cresceu numa sociedade militarizada, dominada por um império estrangeiro que impunha ao povo, além de altos tributos e total obediência, uma estrutura social baseada na concentração da propriedade privada da terra e de outros meios de produção. Os ricos da Palestina eram protegidos e, ao mesmo tempo, servidores dos interesses de Roma. Em nome de César, autodeterminavam-se o direito de barrar qualquer investimento social para, com o uso da espada, empobrecer, segregar e escravizar a maioria da população.
- Mãos na cabeça, galileu vagabundo! 
A Galileia, região onde Jesus nasceu e viveu boa parte de sua vida, era tão marginalizada pela classe dominante como os morros do Rio de Janeiro. Ainda jovem, Jesus teve que conviver com frequentes baculejos. Tinha os atributos que os soldados denominavam “perfil suspeito”. Era preto, pobre, vestia-se com simplicidade e falava em aramaico, língua do meio popular. Sua casa e as da vizinhança eram invadidas na madruga sem mandados judiciais. Pessoas arrancadas para interrogatório sumiam misteriosamente. Quando levaram Amarildo, habilidoso pedreiro da vila de Nazaré e seu colega de infância, Jesus chorou lágrimas de sangue no colo de uma mãe preocupada com o futuro. A chamada Pax Romana, a “paz sem voz”, período de relativa estabilidade do domínio imperial, se impunha pela violência contra a classe que produzia a riqueza que os grandes proprietários usurpavam, acumulavam e usavam para financiar as ações da repressão. “Aê, Pilatos, para assegurar o sucesso de nossa política de segurança pública, quero garantias para agir sem que surja uma nova Comissão da Verdade”, exigiu o interventor Herodes Villas Bôas. 
- Mãe, preciso partir! 
Quando as Unidades de Polícia Pacificadora de César se instalaram na Galileia e uma delas decapitou seu primo, João Batista, só por ele ter falado publicamente umas verdades, Jesus se indignou tanto, que decidiu sair de casa para se tornar militante na construção de uma nova sociedade. Uma em que não houvesse imperadores nem senhores, sem opressão, em que poder fosse sinônimo de serviço; uma sociedade que batizou com o nome de Reino de Deus. Enquanto a resistência e luta do povo lhe alimentavam com imprescindíveis exemplos, os soldados de Roma condenavam como bandidos e crucificavam todas as pessoas que de alguma forma se contrapunham às ordens de cima. A Mídia dos Altos Sacerdotes do Templo de Jerusalém fazia sua parte manipulando as mentes pela disseminação de ódio contra os que se colocavam a serviço da causa dos oprimidos. Quarenta dias antes da Páscoa do ano 32, todos os integrantes de um grupo cultural da Galileia, chamado Paraíso do Tuiuti, foram crucificados por criticarem, em suas alegorias e canções, a exploração que pesava sobre o povo. “No dia em que a Galileia descer e não for carnaval, ‘ordem e progresso’ terá outro sentido afinal/ Não tem órgão oficial nem governo nem liga, nem autoridade que compre essa briga, ninguém sabe a força desse pessoal/ É só a Galileia descer sem ser carnaval’”, expressava corajosamente a letra de uma das canções. 
O final dessa história todos nós conhecemos. Com a ressurreição, Jesus veta aos donos do poder a última palavra e o projeto do Reino se reinventa à cada época. Sinal de que essa história é uma história gestando um final. 
- Filho, eis-me aqui! 

*Publicado originalmente em Informativo Redentorista.
**Thales Emmanuel é militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

sábado, 28 de outubro de 2017

OPA e os desafios da construção do Poder Popular


Por padre Júlio Ferreira* 
A Construção do Poder Popular foi a tônica do encontro regional da OPA - Organização Popular -, que aconteceu de 04 a 06 de outubro em Aracati - Ceará. A História da Revolução Russa nos serviu de análise da conjuntura e base para adentrarmos ao tema. Nada melhor do que se partir de experiências vividas para a compreensão do que se quer construir. 
O projeto de Poder Popular é algo latente, que pulsa nas veias e bombeia o sangue dos militantes e das militantes das causas populares em tempos e espaços diversos. Segundo o MCP - Movimento das Comunidades Populares -, o Poder Popular é a organização permanente de todo o povo em seus locais de moradia, trabalho e estudo. É algo construído de baixo para cima, a partir da base.
Para o pensador marxista uruguaio, Raul Zibechi, o Poder Popular é algo distinto do Estado e que está em conflito com ele, seja num governo de direita ou de esquerda. "O Poder Popular é uma auto-organização de sujeitos revolucionários." Ainda, segundo Zibechi, "nos espaços onde predomina o Poder Popular não poderá ser reproduzida a lógica capitalista. Aí deverão ser potencializadas as práticas comunitárias, socialistas, coletivas, comunistas." "Tem de ser um poder diferenciado," diz ele.
Segundo Ademar Bogo, para o projeto de Poder Popular ser vitorioso é de fundamental importância que se leve em conta duas coisas: a cultura e a luta de classes. "Não pode haver um projeto de sociedade futura sem considerar e sem valorizar a cultura popular". Continua ele: "O projeto é de classe, mas contempla o popular que circunda a classe, quando as forças populares, esperançosas por mudanças, se vinculam ao projeto consciente e solidário formulado pela classe organizada." 
No processo de construção do Poder Popular, um fator que não pode ser esquecido é o poder midiático. O Poder Popular passa também pelo controle da comunicação. Por isso, diz Leopoldo Volanin, é necessária uma reação em conjunto dos movimentos e da sociedade civil organizada para contrapor-se a essa ditadura midiática. "A democratização dos meios de comunicação será a via mais rápida para por fim a conflituosa relação entre mídia e movimentos sociais, sinaliza. 
Esse tema continuará sendo pauta de estudo dos grupos de base para aprofundamento e será retomado no próximo encontro da OPA, nos dias 08, 09 e 10 de dezembro, em Teresina - Piauí. 


*Padre Júlio Ferreira é Missionário Redentorista e militante da OPA.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

OPA e PJ realizam panfletagem em memória dos 100 anos da Revolução Socialista na Rússia



Por Caroline Cirqueira*
Hoje, 25 de outubro, de acordo com o calendário juliano, faz 100 anos que aconteceu a Revolução Socialista Russa. Naquele tempo, os camponeses e trabalhadores lutavam por melhorias sociais, por direito à terra, por uma vida digna, sem exploração.
A Revolução Russa nos ensinou que precisamos estar atentos... Nós também precisamos lutar! Sair do comodismo que a mídia nos oferece na bandeja diariamente (e ainda trazendo uma xícara de café, para que continuemos deitados e felizes, como se tudo estivesse perfeito) e indagar o porquê da crise, o porquê de tantos trabalhadores e trabalhadoras não receberem um salário digno, o porquê do dinheiro e do lucro ficarem na mão de minorias, o porquê da seca que maltrata o povo, o porquê das terras em mãos de grandes empresários, o porquê de tanta violência em escolas e bairros, o porquê de lotação em penitenciárias, o porquê de tantas mortes a todo instante, o porquê de projetos visualmente deslumbrantes, mas que oprimem o sujeito que nele pertence, o porquê da centralização midiática, são infinitos os porquês...
Mas, para mudar isto, não adianta falar somente da importância do seu voto, é necessário mais. Não adianta fantasiar uma situação de jogar uma bomba no Congresso. Não adianta refletir e não agir. É preciso ter garra para conhecer as realidades, os povos oprimidos. É preciso enxergar. Perguntem, sejam curiosos, corram atrás da verdade, só assim é possível sentir a inquietação de querer mudar essa sociedade. Quem ousa lutar, um dia há de vencer.
E, nesta luta, a PJ (Pastoral da Juventude) da Paróquia São José Operário e a OPA (Organização Popular) de Teresina panfletaram nas ruas da Comunidade Bom Jesus, buscando levar informações e o verdadeiro sentido de esperança e garra que a Revolução Russa nos proporciona até os dias de hoje.
Cada semente plantada faz a diferença. Como afirma o evangelho: "A que assemelharemos o reino de Deus, ou com que parábola o representaremos? É como um grão de mostarda, que, quando semeado na terra, embora seja menor que todas as sementes que há na terra; contudo, depois de semeado, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças e deita grandes ramos, de tal modo que as aves do céu podem pousar à sua sombra." (Marcos 4:30-32).
Lutar pelos e com os mais pobres e oprimidos é estar em sintonia com o Reino de Deus. Sejamos e sigamos como grãos de mostarda. 

*Caroline Cirqueira é militante da OPA e da PJ.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

100 anos depois de hoje*

História e atualidade da Revolução Russa

Por Thales Emmanuel**

Era o ano de 1917. A fome se alastrava na cidade e no campo, mas não para toda gente. Na cidade, as mazelas não atingiam os ricos capitalistas; no campo, a nobreza seguia ostentando o poder sobre as terras e, consequentemente, sobre o trabalho das famílias campesinas, que representavam 80% da população e eram obrigadas, por ordens do czar, a enviar seus filhos para morte no fronte de batalha da Primeira Guerra Mundial.

Czar era o título conferido aos imperadores da Rússia, uma espécie de rei, cujo poder se alicerçava na riqueza de seus amigos latifundiários, industriais e banqueiros, riqueza originada da exploração de milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

Se comparado a outros países da Europa capitalista, a Rússia era um reinado atrasado, ainda feudal. Somente em algumas poucas cidades um operariado se formava, sobretudo pela entrada de capitais estrangeiros.

12 anos antes, em 1905, acontecimentos abalaram as estruturas daquela sociedade decadente. Em janeiro, dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras marcharam pelas ruas de São Petersburgo em direção ao Palácio de Inverno, residência do czar. Usavam símbolos religiosos. Não queriam guerra. Queriam que o imperador olhasse para eles, que ajudasse a sanar a difícil situação na qual estavam mergulhados. Mas o czar, indiferente à crucificação que pesava sobre a maioria da população, recebeu o povo à bala. O episódio, que ficou conhecido como Domingo Sangrento, foi o estopim para uma revolução popular.

Domingo Sangrento

Greves se espalharam rapidamente, soldados se rebelaram contra as ordens que vinham de cima. Nasceram os sovietes, os conselhos de operários, soldados e camponeses, que passaram a organizar, através da democracia direta, parte da produção, da imprensa e de outros setores da vida social. Com os sovietes, a classe trabalhadora descobriu, na prática, que não precisava de patrões.

A crise aperta e Nicolau II, o czar, dá a entender que vai recuar, prometendo reformas democráticas. Uma cilada! Quase nenhuma promessa é cumprida e a repressão ataca com força máxima as organizações da classe trabalhadora. Prisões, mortes e difamações. A maré da luta dos de baixo reflui, como se precisasse ganhar novo fôlego. Alguns conseguem escapar para o exílio. Mais uma importante lição de 1905: é preciso destruir o poder das forças opressoras antes que este destrua o Poder Popular.

Os anos seguem e, em fevereiro de 1917, a luta de classes se acirra mais uma vez. Uma mobilização no Dia Internacional das Mulheres confere novo impulso às forças populares. Ressurgem os sovietes. A memória de 1905 corre viva nas veias do povo! O czar abdica do trono e o poder se divide em dois: de um lado, a duma, uma espécie de congresso nacional, um governo provisório, que reúne membros das classes proprietárias e de organizações de trabalhadores que acreditam na necessidade de uma etapa de desenvolvimento capitalista antes da luta pelo socialismo propriamente dita; de outro, os sovietes, apoiados pelo Partido Bolchevique e pela ala esquerda de algumas daquelas organizações inseridas no governo provisório. Os bolcheviques puxam a palavra de ordem “Todo poder aos sovietes!”, acreditam na capacidade da classe trabalhadora conduzir uma revolução socialista, e acompanham o povo nas ruas com os gritos de “Pão, paz e terra!”

Mulheres em luta na Revolução

Os meses passam e o governo provisório não atende às reivindicações das ruas. Seu descrédito ante as massas populares cresce ainda mais. Em sentido inverso, a confiança nos bolcheviques aumenta, fazendo com que suas ideias se tornem hegemonia nos sovietes. Em meio à extrema precarização da vida, os de cima não conseguiam mais governar como antes e os de baixo não queriam mais retornar à difícil vida que levavam.

Um setor do governo provisório, comandado pelo general czarista Kornilov, ensaia um golpe contra o próprio governo. Entre o ruim e o pior, os bolcheviques mobilizam os trabalhadores para o combate contra Kornilov, sem gerar ilusões quanto as intenções do governo provisório: “Não o apoiamos, e sim desmascaramos sua debilidade.” Kornilov é derrotado e as massas populares aderem ao bolchevismo definitivamente.

O campesinato se levanta. O Partido Bolchevique defende a entrega imediata das terras aos agricultores e trabalha para que o movimento no campo se una à luta dos operários na cidade. O vínculo com e entre a classe trabalhadora se estreita ainda mais.

Lenin, dirigente bolchevique, fala ao povo.

É chegado o momento de organizar a insurreição, é preciso destruir o poder que destrói. O socialismo abre passagem, sem pedir licença, e um 2° congresso nacional dos sovietes é convocado. Na madrugada do dia 25 de outubro, segundo o calendário juliano russo, o governo provisório é derrubado e os sovietes, mais os bolcheviques, tomam o poder. Os países capitalistas beligerantes voltam suas armas contra a Rússia revolucionária e se inicia um período de guerra civil que durará até 1921. A classe trabalhadora internacional se solidariza com a classe trabalhadora russa, enquanto as classes ricas destilam seu ódio apoiando e patrocinando ações terroristas e difamando a Revolução de todas as formas possíveis e imagináveis.

1917 marca o início do ciclo de revoluções socialistas, com forte impacto na trajetória social do mundo ainda hoje. O Muro de Berlim caiu em 1989 – mas caiu do lado errado. Hoje, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não existe mais, mas essa heroica experiência, sem precedentes na história humana, serviu para mostrar que, além de necessária, uma outra forma de organizar a vida é possível de ser construída.

Os soviéticos interviram decisivamente para uma série incontável de conquistas populares. Países da África se libertaram do julgo colonial com seu apoio, o nazifascismo foi derrotado com a resistência e ofensiva de seu povo, as mulheres avançaram de forma nunca antes vista para superação das desigualdades de gênero. Até a banda capitalista do planeta teve que fazer inéditas concessões à classe trabalhadora em seus territórios, com medo desta seguir o repertório vermelho. Para citar alguns exemplos.

Os revolucionários e revolucionárias daquele tempo ousaram vencer, constituindo com isso o mais abominável dos pecados para quem desfruta da vida na parte de cima da pirâmide social. Como toda obra humana, muitos erros e até crimes foram cometidos. Crimes que, na sociedade capitalista, naturaliza-se e se estimula como valor e princípio, diga-se de passagem.

Que os desvios não escapem à uma imprescindível e permanente autocrítica, nem muito menos sirvam de justificativa para abandono do ideal de libertação. Até porque a humanidade, 100 anos depois de hoje, dependerá inteiramente do que fazemos agora com a memória da generosidade soviética de 100 anos atrás.

*Texto originalmente publicado em Informativo Redentorista, Vice-Província de Fortaleza.

**Thales Emmanuel é militante da Organização Popular (OPA) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Venezuela: participação e resistência popular*


Por Thales Emmanuel**
O que imediatamente vem à cabeça quando escutamos as palavras “Revolução Bolivariana”? Que sentimento nos acomete ao ouvirmos os nomes “Hugo Chávez” e “Nicolás Maduro”? Provavelmente coisa boa não é. Também pudera! Com meios de comunicação dominados por poderosos grupos empresariais, pessoas e movimentos que confrontem seus interesses só podem mesmo serem difamados como imagem e semelhança do capeta.

Desde 1998, com a eleição de Hugo Chávez para presidência da Venezuela, todas as medidas tomadas pelo governo no intuito de construir as bases de uma soberania nacional e popular têm sido atacadas por uma combinação de manobras golpistas, sobretudo midiática, econômica, política e paramilitar. Um dos mais emblemáticos desses fracassados intentos encontra-se registrado em vídeo no youtube. “A Revolução não será televisionada” mostra como, em 2002, setores antipopulares, com auxílio do imperialismo estadunidense, sequestraram o presidente Chavez para depô-lo do cargo. A pressão do povo, porém, que desceu dos morros a protestar, forçou a restituição do dirigente às suas funções.
Em meio a uma estrutura social e política adversa, e com todas as limitações daí decorrentes, a Revolução Bolivariana consagra ao Poder Popular a capacidade de enfrentar o cerco empreendido pelo capital. Mecanismos de democracia participativa, como conselhos comunais e plebiscitos, servem para dar vazão direta à vontade do povo. Por esse motivo são duramente perseguidos por segmentos antidemocráticos da classe dominante, nacional e internacional. Assim como a “Pax Romana” significou o inferno para as classes populares de Roma e dos povos invadidos na antiguidade, a participação popular na Venezuela enfurece os porta-vozes da “democracia” de privilégios da burguesia atualmente.
Se há erros na condução do processo? Evidentemente que sim. Se é possível, de plebiscito em plebiscito, chegar à plena soberania popular? A história demonstra que não. A burguesia usará de todo seu gigantesco arsenal para impedir que isso aconteça, até empurrar a luta para patamares mais dramáticos, em caso de não rendição das forças populares.
Neste sentido, um fundamental acerto foi reiterado esses dias pelo presidente Nicolás Maduro, com a convocação de nova Assembleia Nacional Constituinte. Medida que fez intensificar os ataques terroristas made in Casa Branca.
Se “é impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação, como protagonistas, das grandes maiorias”, como diz papa Francisco, é igualmente impossível não reconhecer – e o odioso desespero do inimigo o prova – que a participação protagonizada pelas maiorias é o maior de todos os legados da Revolução Bolivariana até aqui.

*Texto originalmente publicado em Informativo Redentorista – Vice-Província de Fortaleza.

**Thales Emmanuel é militante do PCB e da Organização Popular (OPA).

quarta-feira, 14 de junho de 2017

SELETIVIDADE PROPORCIONAL, PRECAUÇÕES ANTIRREVOLUCIONÁRIAS



Por Josenilson Doddy*


A população negra, jovem e de baixa escolaridade, moradora de bairros periféricos, continua sendo alvo de extermínio, segundo os últimos estudos do Instituto de Pesquisa Aplicada – IPEA, sobre o atlas da violência, totalizando a maior parte das vítimas de homicídios no país (78,9%) dos casos. A publicação do resultado da pesquisa ocorreu dia 05 de junho de 2017. 
O resultado dessa pesquisa deixa cada vez mais evidente qual é o projeto de sociedade implicado no código genético do Estado burguês que gerencia o sistema capitalista. Os acordos institucionais e políticos são extensão da prática de superexploração e dizimação da classe trabalhadora.   
Esse extermínio seletivo não é algo sem pretexto ou caso isolados. É maneira de se precaver pela contenção, pela violência. A burguesia precisa a todo custo impedir que a miséria por ela causada corra o risco de se tornar movimento revolucionário. “Dispersa! Dissipa!” são suas palavras de ordem contra a periferia.
O acirramento da luta de classes pode desmascarar esse sistema de morte. Tal ameaça faz com que se use de todas as armas e se pratique as mais cruéis  atrocidades e violências. Essa investida do capital é contra os jovens, negros, moradores da periferia, índios, as mulheres, LGBTs, sem terra, sem teto. Todos e todas os/as pertencentes à classe trabalhadora são as vítimas fatais.  
"Sejamos o pesadelo permanente daqueles que roubam os nossos sonhos." Lutar, criar Poder Popular! 

*Josenilson Doddy é militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e da Organização Popular (OPA).