quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Para aonde caminhamos?



Vivemos tempos difíceis, no Brasil e no mundo. De cem anos para cá, se pegarmos os dados disponíveis, perceberemos que a morte avança perigosamente sobre a vida. A desigualdade social é maior: ricos mais ricos e mais pobres cada vez mais pobres. As mortes por armas de fogo aumentam assustadoramente contra a população marginalizada, em nosso país principalmente a negra. A indústria da guerra amplia seu mercado consumidor e seu poder de destruição, tendo presidente de república como garoto propaganda. A bomba lançada em Hiroshima, atualizada em tecnologia, destruiria hoje a vida humana na terra num apertar de botão. O verde da biodiversidade sofre grave desertificação com o avanço do verde dos monocultivos tóxicos do agronegócio. A mineração a serviço do lucro sepulta trabalhadores com dilúvios de lama de rejeitos. A seca deixa de ser uma questão climática e só atinge quem não tem dinheiro para pagar pela água. Água, dom de Deus apropriado por grandes empresas. Para aonde vamos? Para aonde caminha a humanidade?

Não é preciso ser profeta para entender que o futuro nos espera incandescente como a Amazônia incendiada ou o mais terrível dos infernos nunca antes imaginado. “Nunca” é modo de dizer, pois este inferno para muitos já existe há tempos. O mais preocupante de tudo é que não são videntes que afirmam o tenebroso possível destino da humanidade, mas a história. É a história, são os fatos que mostram que marchamos em direção às ardentes labaredas.

Se, por um lado, as previsões advindas de fatos desesperam mais do que qualquer poder de adivinhação, por outro, anima saber que as mudanças de rumo estão ao alcance de nossas ações. A história é uma construção humana! Por isso, não nos enganemos, o primeiro alvo que os donos do capital e seus servidores buscam destruir é nosso ânimo, nossa alma, nossa capacidade de acreditar que é possível caminhar sobre águas tempestuosas e chegar a um chão seguro. “Não desistir é a única maneira de vencer”, como ensina o militante no filme Uma História de Amor e Fúria.

Para tanto, precisamos aprender com a própria história, onde abundam exemplos de coragem e de vitória das classes oprimidas. Aprender de verdade é, em muitos casos, aceitar a dor como método pedagógico. Há muitas coisas que não queremos enxergar, mas que saltam aos olhos. Muitas vezes, escutamos o que queremos e nos fazemos de surdos ao que precisamos ouvir. No livro Êxodo, da Bíblia, por exemplo, Deus escuta o clamor de seu povo contra os opressores, conhece seus sofrimentos (Ex 3, 7), serve de inspiração, caminha junto, mas é o povo quem tem que se levantar e lutar pela sua libertação.

Muitas de nossas angústias aparecem justamente por não aceitarmos esta verdade. Por medo, por falsa compreensão ou por não sentirmos na pele o que sofre aquele que se encontra na parte mais baixa da pirâmide social, acabamos terceirizando uma missão que somente nós podemos realizar. “Liberdade não se pede, se conquista!”, como diz dona Daisy Fernandes. E olha que Deus fala isso para Moisés sem arrodeios: “...eu sei que o rei do Egito não os deixará ir, se não for obrigado por mão forte” (Ex 3, 19).

Neste sentido, o espanto constatado em alguns de nós espanta tanto ou até mais que os absurdos das ordens que hoje saem de Brasília. As medidas políticas do atual governo federal atentam contra nossa alma e o estrago é tanto maior quanto maior é a ingenuidade de nossas consciências. Nas missas e celebrações, pedimos a Deus que sensibilize governantes, que amoleça corações faraônicos. Entretanto, praticamente não se escuta prece em relação ao fortalecimento da organização e da luta do povo. Pedimos até para que se substitua por bons os maus administradores do sistema que escraviza, como se a escravidão por si só não fosse heresia que atenta contra a obra do Pai.

No filme Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, a conversa é bem diferente. O povo sabe o que quer e também o que não quer, aprende com sua própria história e se constrói protagonista de sua libertação. As dores das perdas são convertidas em organização e fé no enfrentamento aos opressores. E não achemos nós que se trata de ficção. Bacurau é tão real quanto a revolução protagonizada pelo povo hebreu no Egito e as batalhas há séculos enfrentadas pelos povos indígenas do Brasil.

Nos setores populares da Igreja, chegamos até a diagnosticar o mal como mal – “O capitalismo não presta” –, mas quase nada falamos a respeito do que colocaremos em seu lugar, que modelo de sociedade almejamos construir. Afinal de contas, almejamos ou não a superação da ordem social do capital? Se sim, então qual o nome político do Reino de Deus? A companheira Jocélia Ribeiro, das Comunidades Eclesiais de Base, questiona o silêncio cristão ante a urgência da temática: “Por que não conversamos sobre socialismo, sobre comunismo? Sabemos o que estas palavras significam?” Óbvio que a nova sociedade não precisa ser chamada dessa forma. Não importa o nome, basta que construamos uma estrutura social que nos permita viver como irmãos e irmãs. Mas não nos iludamos: ter um objetivo é fundamental. Se não sabemos para aonde ir, chegaremos a lugar nenhum. No Êxodo, não é somente a luta contra a escravidão que interessa. O objetivo está traçado desde o princípio da luta: marchar em direção à “terra onde corre leite e mel, o território dos cananeus, heteus, amorreus, ferezeus, heveus e jebuzeus” (Ex 3, 8).

Acontece que entre a escravidão e a terra prometida há, invariavelmente, um extenso deserto. Assim como a liberdade, a construção da igualdade passa por mãos humanas. Humanos com seus medos, dúvidas, egoísmos e contradições. Humanos desumanizados por regimes opressores. Mas também humanos em solidariedade, coragem, criatividade e esperança. Humanos como nós. Não dá para anunciar o Reino sem passar pelo deserto. Não é com esmola de tempo e de recursos que construiremos um mundo de justiça e paz. O sacrifício de partilhar o que nos é essencial é o nosso deserto e, ao mesmo tempo, anúncio de vida plena para todos e todas. Neste sentido, o que temos feito?

“... eu lhes dou a MINHA paz” (Jo 14, 27). A paz de Jesus não era a mesma paz proclamada pelo Império Romano. A paz de César tinha como significado a relativa estabilidade que passava o sistema opressor na época em que Jesus fora crucificado. A paz de Jesus é o oposto da paz de César. Por isso os primeiros cristãos eram conhecidos como “perturbadores da ordem”. A paz de Jesus é uma paz inquietante, que estranha nas tripas as dores e sofrimentos dos oprimidos, e celebra junto suas alegrias e conquistas. Paz como sinônimo de indignação e enfrentamento às injustiças. O comodismo da indiferença, para Jesus, não era sinal de paz, mas de crueldade. Como vivenciamos e como queremos vivenciar a paz de Cristo em nosso dia a dia?

O momento que atravessamos é difícil. Porém, se Deus nos colocou aqui, justo agora, não foi à toa. Há sempre um admirável propósito ávido por se realizar nas entrelinhas daquilo que muitos enxergam como trágica coincidência. E o nosso propósito, como seguidores e seguidoras do Nazareno, é semear vida, luta e libertação. Não nos rendamos à escravidão! Ponhamos, com ou sem medo, os dois pés para fora do barco nessas águas turbulentas e façamos do deserto sinal de anunciação. Só assim, eles, os poderosos e sua sociedade opressora, não passarão! 

* Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular (OPA).

** Publicado em Informativo Redentorista.

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